Canto das Esquinas Sagradas de uma Cidade
E de cidades eu direi, entre o canavial e o asfalto, a que celebra o rito da metamorfose. Eu canto essa cidade, Campinas, que sob o zênite oculta o seu segredo e ao crepúsculo revela o seu brasão de carne e mistério. Ela tem a beleza exótica e beleza das trans, as lindas travestis, herméticas, nas esquinas eretas etéreas. Elas são as sentinelas de um império noturno, estátuas de calcário e neon erguidas contra o tempo vulgar; formas puras que guardam o limiar do sagrado. Eu as nomeio, sem pudor e com temor: flores do meu desejo e do meu amor, cultivadas não na terra, mas na geografia sagrada da minha própria carne, quase canavial no ser plantado no escuro ser das noites profundas onde o açúcar e o sangue se confundem.
Canção Noturna do Poente
E vós, agrimensores do invisível, medi a sombra que se alonga sobre a face da terra!
Eu vi o dia estancar o seu curso no limite das grandes planícies, lá onde o ouro se torna bronze e o silêncio se faz espesso como a resina das árvores milenares.
Não é uma queda, mas uma fundação; não é o fim, mas a ereção de um império de luz que se recusa a morrer.
Vede: contra o deserto das horas comuns, ergue-se a torre ereta dura do moreno por do sol, coluna de fogo frio e músculo de terra, onde o meu desejo encontra o seu prumo e a sua lei. É a geometria do desejo gravada no firmamento, o fuste de argila
e glória que sustenta, sozinho, o peso de toda a noite que virá.
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