O Sacramento da Lâmina Negra
I
O cafezal não é um jardim: é uma fábrica de sombras.
Suas linhas paralelas, exatas como versos de ferro,
limitam o mundo e impõem uma disciplina de pedra.
Aqui, o sol não acaricia, ele golpeia a terra
e obriga a carne a buscar o seu próprio contorno.
II
Nesta geometria do suor,
o amor não chega como uma nuvem mística.
Ele chega como uma necessidade tátil,
uma vontade de polir o osso da existência
contra a dureza de um outro corpo.
Um amor que se constrói, faca contra faca,
na transparência do meio-dia.
III
uma vez eu chupei um homem negro no cafezal,
IV
O ato foi uma liturgia de terra e sangue.
Na escuridão daquela carne mineral,
eu busquei o núcleo da doçura e da força.
Foi uma sucção de luz, um transplante de alma:
a brancura da minha boca de cal
dissolvendo-se na noite absoluta da pele dele.
Um amor que reescreveu a história do Brasil
naquele breve instante de união física.
V
Este amor não pede licença para existir.
Ele existe como a pedra existe, como o café existe.
É uma defesa da alegria que se extrai do bruto,
do prazer que não se ajoelha diante da lei,
mas se ajoelha diante da beleza do outro.
Um ato que é, em si, um templo
construído sem cimento, apenas com desejo.
VI
O cafezal testemunhou o sacramento.
O amor homossexual é um cristal exato:
brilha com a dureza de quem sobrevive
e com a doçura de quem sabe
que o corpo é o único altar verdadeiro.
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