quinta-feira, 26 de março de 2026

O Transplante do Sol (ou: Geometria da Saudade)

 O Transplante do Sol (ou: Geometria da Saudade)

I

A lâmina do sol de Sevilha,

cortante como gume de faca,

desceu pelo Rio Capibaribe

até encontrar a cova do Brasil.

Um sol sem sombra, exato,

um sol sem compaixão de mangue.


II

Aqui, a terra é mole e morna,

massa de farinha e de barro,

onde o corpo negro se enterra

antes de aprender o cansaço.

Mas no silêncio da vala,

no osso que recusa a moleza,

uma faísca resistiu:

cristal de luz ibérica,

dureza de pedra e cal.


III

Um sol que não perdoa a forma.

O coração, esse relógio de carne,

acostumado ao suor e à lama,

sentiu o salto da geometria.

Não foi uma dança, foi um corte.

A areia fina da praça de touros

substituindo o sangue na veia.


IV

Nas covas do Brasil,

a Espanha saltou do meu coração de negro.


Saltou para se fazer pedra,

para desenhar o contorno

onde antes só havia caos.

A brancura das casas de Cádiz

refletida na palidez da fome,

o grito seco do cante jondo

ressoando no silêncio das usinas.


V

Um coração que não é mais só de carne.

Um coração construído,

um coração exilado,

metade gesso e metade barro,

onde a Espanha saltou para fora

para que o Brasil pudesse se olhar no osso.



O Inventário 

I

O coração, esse bicho de couro,

curtido no sol do sertão,

sentiu o sismo, o estouro:

a Espanha em plena erupção.


II

Nas covas do Brasil, o barro

não é silêncio, é memória.

Onde o corpo negro faz o amparo

de uma outra e gélida história.


III

Nas covas do Brasil

a Espanha saltou do meu coração de negro.


IV

Saltou como salta a cal

na parede seca da aldeia.

Um salto de luz mineral

incendiando a própria veia.


V

Não há lamento, há estrutura.

Onde a dor se faz arquitetura.



A Física da Secura (ou: O Olhar Atômico no Sertão)

I

O olhar do físico, exato,

não vê apenas a paisagem frouxa.

Ele fende o osso da luz,

procura o núcleo da cal,

a geometria oculta do fracasso.

É um olhar que não consola:

ele disseca a estrutura da fome.


II

Mas a ciência tem seus delírios,

seus pontos de fusão e de loucura.

No epicentro do olho,

onde o átomo se faz poema,

a matemática se quebra

diante da vastidão da poeira.


III

o olhar do amor de um físico nuclear gera:

borboletas negras do sertão


IV

Não são asas de seda,

são fragmentos de urânio e de luto.

Um voo pesado, radioativo,

sobre as ossadas brancas do gado.

A queima do átomo no peito

se transmutando em asa de fumo.


V

Um amor que não é carícia,

mas uma explosão controlada,

uma fissura no real.

O físico vê o desastre

e dele extrai a beleza:

o voo mineral

do negro sobre a terra queimada.


VI

O amor é uma força exata

que só gera a incerteza.

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