O Transplante do Sol (ou: Geometria da Saudade)
I
A lâmina do sol de Sevilha,
cortante como gume de faca,
desceu pelo Rio Capibaribe
até encontrar a cova do Brasil.
Um sol sem sombra, exato,
um sol sem compaixão de mangue.
II
Aqui, a terra é mole e morna,
massa de farinha e de barro,
onde o corpo negro se enterra
antes de aprender o cansaço.
Mas no silêncio da vala,
no osso que recusa a moleza,
uma faísca resistiu:
cristal de luz ibérica,
dureza de pedra e cal.
III
Um sol que não perdoa a forma.
O coração, esse relógio de carne,
acostumado ao suor e à lama,
sentiu o salto da geometria.
Não foi uma dança, foi um corte.
A areia fina da praça de touros
substituindo o sangue na veia.
IV
Nas covas do Brasil,
a Espanha saltou do meu coração de negro.
Saltou para se fazer pedra,
para desenhar o contorno
onde antes só havia caos.
A brancura das casas de Cádiz
refletida na palidez da fome,
o grito seco do cante jondo
ressoando no silêncio das usinas.
V
Um coração que não é mais só de carne.
Um coração construído,
um coração exilado,
metade gesso e metade barro,
onde a Espanha saltou para fora
para que o Brasil pudesse se olhar no osso.
O Inventário
I
O coração, esse bicho de couro,
curtido no sol do sertão,
sentiu o sismo, o estouro:
a Espanha em plena erupção.
II
Nas covas do Brasil, o barro
não é silêncio, é memória.
Onde o corpo negro faz o amparo
de uma outra e gélida história.
III
Nas covas do Brasil
a Espanha saltou do meu coração de negro.
IV
Saltou como salta a cal
na parede seca da aldeia.
Um salto de luz mineral
incendiando a própria veia.
V
Não há lamento, há estrutura.
Onde a dor se faz arquitetura.
A Física da Secura (ou: O Olhar Atômico no Sertão)
I
O olhar do físico, exato,
não vê apenas a paisagem frouxa.
Ele fende o osso da luz,
procura o núcleo da cal,
a geometria oculta do fracasso.
É um olhar que não consola:
ele disseca a estrutura da fome.
II
Mas a ciência tem seus delírios,
seus pontos de fusão e de loucura.
No epicentro do olho,
onde o átomo se faz poema,
a matemática se quebra
diante da vastidão da poeira.
III
o olhar do amor de um físico nuclear gera:
borboletas negras do sertão
IV
Não são asas de seda,
são fragmentos de urânio e de luto.
Um voo pesado, radioativo,
sobre as ossadas brancas do gado.
A queima do átomo no peito
se transmutando em asa de fumo.
V
Um amor que não é carícia,
mas uma explosão controlada,
uma fissura no real.
O físico vê o desastre
e dele extrai a beleza:
o voo mineral
do negro sobre a terra queimada.
VI
O amor é uma força exata
que só gera a incerteza.
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