o homem olhava o rosto do outro enquanto dormia e pensava que seria
bom se o mundo fosse apenas aquele quarto com as paredes descascadas
pela humidade, mas o mundo lá
fora não deixa ninguém em paz, e perguntou-se ele pela centésima vez,
o que dirá o vizinho do lado quando nos vir a entrar juntos com as
compras, o que dirá a família quando entender que este silêncio nosso não é de
amizade mas de um amor que não tem nome nos seus
dicionários, e depois veio o pensamento sobre a igreja, essa
instituição que se diz dona dos corações e que certamente nos apontará o dedo
como se estivéssemos a cometer um crime contra a natureza, quando a natureza é
apenas isto, este sentir, e o homem suspirou sentindo o peso das grades
invisíveis que a sociedade constrói para nos manter dentro do cercado, será que
temos de viver a esconder o que é mais puro, será que a nossa maior tragédia é
não sabermos o que fazer com a vida por medo do que os outros dirão, e o outro,
acordando nesse instante, tocou-lhe a mão e perguntou, em que estás a pensar,
ao que o homem respondeu, estou a pensar que o mundo é demasiado pequeno para o
que sentimos,
e demasiado grande para o medo que temos dele.
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