sexta-feira, 20 de março de 2026

A superficie - conto

 

o homem olhava o rosto do outro enquanto dormia e pensava que seria bom se o mundo fosse apenas aquele quarto com as paredes descascadas

 

 pela humidade, mas o mundo lá fora não deixa ninguém em paz, e perguntou-se ele pela centésima vez,

 

o que dirá o vizinho do lado quando nos vir a entrar juntos com as compras, o que dirá a família quando entender que este silêncio nosso não é de amizade mas de um amor que não tem nome nos seus

 

 

dicionários, e depois veio o pensamento sobre a igreja, essa instituição que se diz dona dos corações e que certamente nos apontará o dedo como se estivéssemos a cometer um crime contra a natureza, quando a natureza é apenas isto, este sentir, e o homem suspirou sentindo o peso das grades invisíveis que a sociedade constrói para nos manter dentro do cercado, será que temos de viver a esconder o que é mais puro, será que a nossa maior tragédia é não sabermos o que fazer com a vida por medo do que os outros dirão, e o outro, acordando nesse instante, tocou-lhe a mão e perguntou, em que estás a pensar, ao que o homem respondeu, estou a pensar que o mundo é demasiado pequeno para o que sentimos,

 

e demasiado grande para o medo que temos dele.

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