Na câmara fúnebre onde a vela morria,
jazia eu, pálido, à beira do abismo sem fim.
O peito arquejava em último estertor,
e a sombra da morte já me cobria o rim.
um roçar de plumas contra o vidro embaçado.
Abri os olhos turvos, já quase sem luz,
e vi-o: o Corvo, imóvel, no busto de Palas
sentado.
Apenas me fitou — olho de ônix, sem piscar.
E nesse olhar senti um frio que não era da
morte,
mas de algo mais antigo, que não sabe perdoar.
e a soprou de volta ao cárcere de carne e dor.
O coração, traidor, tornou a pulsar;
o sangue, lento, refez seu rumor.
e contemplei o quarto, o espelho, o vazio.
A vida, essa longa sentença de luto,
voltava a me prender no seu ciclo sombrio.
“Que tormento é nascer para carregar a cruz!
Todo afeto apodrece, toda chama se extingue,
e o tempo é um carrasco que nunca se condói de
nós.”
Perguntei: “Dizes tu também que nada tem
remédio?”
E o bico negro moveu-se, lento, solene,
e uma voz rouca, grave, saiu do seu peito:
“Eu sei.”
“Eu sei.”
“Eu sei… eu sei… eu sei.”
e chorei — não por mim, mas pela espécie
inteira.
Pois o Corvo não mente, nem consola, nem mente:
apenas repete o que o tempo já sabia inteira.
um homem redivivo, um pássaro sem adeus.
Eu, meditando a tristeza sem nome da vida;
ele, respondendo sempre, com seu triste: “Eu
sei.”
quando fecho os olhos e sinto o peito arfar.
Pois quem volta da morte não ganha a salvação:
ganha apenas mais tempo para aprender a chorar.
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