sábado, 21 de março de 2026

O Corvo



Na câmara fúnebre onde a vela morria,
 

jazia eu, pálido, à beira do abismo sem fim. 

O peito arquejava em último estertor, 

e a sombra da morte já me cobria o rim. 

 Então ouvi — ou julguei ouvir — um bater de asa negra, 

um roçar de plumas contra o vidro embaçado. 

Abri os olhos turvos, já quase sem luz, 

e vi-o: o Corvo, imóvel, no busto de Palas sentado. 

 Não grasnou. Não crocitou o Nevermore fatídico. 

Apenas me fitou — olho de ônix, sem piscar. 

E nesse olhar senti um frio que não era da morte, 

mas de algo mais antigo, que não sabe perdoar. 

 Com bico ergueu minha alma caída no chão, 

e a soprou de volta ao cárcere de carne e dor. 

O coração, traidor, tornou a pulsar; 

o sangue, lento, refez seu rumor. 

 Ressurrecto, ergui-me — tumba agora é leito — 

e contemplei o quarto, o espelho, o vazio. 

A vida, essa longa sentença de luto, 

voltava a me prender no seu ciclo sombrio. 

 “Oh, existência cruel!” — murmurei à penumbra — 

“Que tormento é nascer para carregar a cruz! 

Todo afeto apodrece, toda chama se extingue, 

e o tempo é um carrasco que nunca se condói de nós.” 

 Olhei para o Corvo. Ele permaneceu calado. 

Perguntei: “Dizes tu também que nada tem remédio?” 

E o bico negro moveu-se, lento, solene, 

e uma voz rouca, grave, saiu do seu peito: 

 “Eu sei.” 

 “E a dor que me rói os ossos, que me queima a mente?” 

“Eu sei.” 

 “E o amor que se torna punhal, e a esperança que mente?” 

“Eu sei.” 

 “E este ciclo maldito de nascer, sofrer e morrer?” 

“Eu sei… eu sei… eu sei.” 

 Então curvei-me ante o pássaro eterno, 

e chorei — não por mim, mas pela espécie inteira. 

Pois o Corvo não mente, nem consola, nem mente: 

apenas repete o que o tempo já sabia inteira. 

 E ali ficamos os dois na meia-noite fria, 

um homem redivivo, um pássaro sem adeus. 

Eu, meditando a tristeza sem nome da vida; 

ele, respondendo sempre, com seu triste: “Eu sei.” 

 E o eco desse “Eu sei” ainda ressoa em mim, 

quando fecho os olhos e sinto o peito arfar. 

Pois quem volta da morte não ganha a salvação: 

ganha apenas mais tempo para aprender a chorar.



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