quinta-feira, 19 de março de 2026

Espelho de Vidro


I

Lá onde os picos de granito tocam o Etéreo,

E o Silêncio cultiva a sua rosa de geada,

Ergue-se o trono do Destino, frio e sério,

Olhando a planície pela noite sitiada.


II

O Fado, cujos olhos são feitos de esquecimento,

Lançou seu manto sobre a planície dormente;

E um hálito de vácuo, sem voz e sem bento,

Gerou a criatura que o Sol não consente.


III

Surgiu a Névoa, fantasma de gaze e de sono,

Filha da Inércia com o Medo ancestral;

Buscando o Reino que não tem dono,

O espelho sagrado do peito mortal.


IV

Pois no centro do vale, puro e isolado,

Brilhava o Lago Coração, cristal de verdade;

Onde o Olimpo via seu rosto espelhado,

E a Alma bebia a sua eternidade.


V

Mas a Névoa avançou, com passos de veludo,

Rastejando pelas margens de junco e de mágoa;

Apagando o reflexo, tornando tudo mudo,

Lançando o seu véu sobre a face da água.


VI

"Eu sou o Repouso", sussurrava a intrusa,

"O fim do desejo, a paz sem conflito;

Esquece a batalha, ó Alma reclusa,

Aceita o meu abraço, o meu cinza infinito."


VII

E o Lago Coração, sob o peso de chumbo,

Sentiu sua pulsação de luz se apagar;

Suas águas de prata cederam ao rastro sucumbo,

E o silêncio da Névoa começou a reinar.


VIII

As ninfas da Esperança fugiram assustadas,

Os cisnes do Pensamento perderam o voo;

Pois as margens do peito estavam sitiadas,

E o monstro do Esquecimento ali se instalou.


IX

Lá do alto, Apolo, o Arqueiro Divino,

Viu a mancha de cinza ferir a pureza;

"Não permitirei que o bafo do Destino

Afogue a beleza na torpe tibieza!"


X

Ele esticou o arco de ouro incandescente,

Mirando o centro da massa cinzenta;

"Que o raio da Mente, heróico e potente,

Disperse a mentira que o peito acalenta!"


XI

A flecha de luz cortou o ar estatuário,

Sibilando como o pensamento que acorda;

Atingindo a Névoa no seu santuário,

Nas águas do Lago, na sua própria borda.


XII

A Névoa urrou, ferida na sua essência,

Buscando manter o seu manto de sono;

Mas a luz de Apolo não tem complacência,

Reivindicando o Reino que busca o seu trono.


XIII

Houve uma batalha de fogo e de cinza,

Onde o Lago Coração tremeu em seu leito;

A Vontade Heroica contra a Inércia ranzinza,

Travando o combate no centro do peito.


XIV

Devagar, como um império que desmorona,

A Névoa recuou para os abismos do Fado;

E a luz vitoriosa, sublime etona,

Fez o espelho da água nascer renovado.


XV

O Lago Coração, livre do jugo sombrio,

Pulsa agora com força de um novo cantar;

Refletindo as estrelas, o pico, o desafio,

Sem medo da noite, sem medo de amar.


XVI

Mas Apolo, guardando o seu arco de glória,

Deixou um aviso na brisa que passa:

"A vitória é eterna apenas na memória,

E o Fado não cessa de tecer sua traça."


XVII

"A Névoa voltará, com novos disfarces,

Sob a forma da rotina, do medo, do cansaço;

Cabe a ti, ó Mortal, que não te emparces,

Manter o teu Fogo, manter o teu passo."


XVIII

Pois o peito é o palco da luta divina,

Onde deuses e monstros disputam o chão;

E a Alma heróica, que o céu ilumina,

É o cinzel que lapida a sua própria razão.


XIX

Que a imagem do Lago, puro e desperto,

Seja o teu norte, o teu escudo, o teu guia;

Longe do lodo, do sono, do incerto,

Buscando a clareza do meio-dia.


XX

Lá onde os picos de granito tocam o Etéreo,

A história se grava em estátua de luz:

A alma que vence o seu próprio mistério,

E a névoa que foge quando a Mente conduz.

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