I
Lá onde os picos de granito tocam o Etéreo,
E o Silêncio cultiva a sua rosa de geada,
Ergue-se o trono do Destino, frio e sério,
Olhando a planície pela noite sitiada.
II
O Fado, cujos olhos são feitos de esquecimento,
Lançou seu manto sobre a planície dormente;
E um hálito de vácuo, sem voz e sem bento,
Gerou a criatura que o Sol não consente.
III
Surgiu a Névoa, fantasma de gaze e de sono,
Filha da Inércia com o Medo ancestral;
Buscando o Reino que não tem dono,
O espelho sagrado do peito mortal.
IV
Pois no centro do vale, puro e isolado,
Brilhava o Lago Coração, cristal de verdade;
Onde o Olimpo via seu rosto espelhado,
E a Alma bebia a sua eternidade.
V
Mas a Névoa avançou, com passos de veludo,
Rastejando pelas margens de junco e de mágoa;
Apagando o reflexo, tornando tudo mudo,
Lançando o seu véu sobre a face da água.
VI
"Eu sou o Repouso", sussurrava a intrusa,
"O fim do desejo, a paz sem conflito;
Esquece a batalha, ó Alma reclusa,
Aceita o meu abraço, o meu cinza infinito."
VII
E o Lago Coração, sob o peso de chumbo,
Sentiu sua pulsação de luz se apagar;
Suas águas de prata cederam ao rastro sucumbo,
E o silêncio da Névoa começou a reinar.
VIII
As ninfas da Esperança fugiram assustadas,
Os cisnes do Pensamento perderam o voo;
Pois as margens do peito estavam sitiadas,
E o monstro do Esquecimento ali se instalou.
IX
Lá do alto, Apolo, o Arqueiro Divino,
Viu a mancha de cinza ferir a pureza;
"Não permitirei que o bafo do Destino
Afogue a beleza na torpe tibieza!"
X
Ele esticou o arco de ouro incandescente,
Mirando o centro da massa cinzenta;
"Que o raio da Mente, heróico e potente,
Disperse a mentira que o peito acalenta!"
XI
A flecha de luz cortou o ar estatuário,
Sibilando como o pensamento que acorda;
Atingindo a Névoa no seu santuário,
Nas águas do Lago, na sua própria borda.
XII
A Névoa urrou, ferida na sua essência,
Buscando manter o seu manto de sono;
Mas a luz de Apolo não tem complacência,
Reivindicando o Reino que busca o seu trono.
XIII
Houve uma batalha de fogo e de cinza,
Onde o Lago Coração tremeu em seu leito;
A Vontade Heroica contra a Inércia ranzinza,
Travando o combate no centro do peito.
XIV
Devagar, como um império que desmorona,
A Névoa recuou para os abismos do Fado;
E a luz vitoriosa, sublime etona,
Fez o espelho da água nascer renovado.
XV
O Lago Coração, livre do jugo sombrio,
Pulsa agora com força de um novo cantar;
Refletindo as estrelas, o pico, o desafio,
Sem medo da noite, sem medo de amar.
XVI
Mas Apolo, guardando o seu arco de glória,
Deixou um aviso na brisa que passa:
"A vitória é eterna apenas na memória,
E o Fado não cessa de tecer sua traça."
XVII
"A Névoa voltará, com novos disfarces,
Sob a forma da rotina, do medo, do cansaço;
Cabe a ti, ó Mortal, que não te emparces,
Manter o teu Fogo, manter o teu passo."
XVIII
Pois o peito é o palco da luta divina,
Onde deuses e monstros disputam o chão;
E a Alma heróica, que o céu ilumina,
É o cinzel que lapida a sua própria razão.
XIX
Que a imagem do Lago, puro e desperto,
Seja o teu norte, o teu escudo, o teu guia;
Longe do lodo, do sono, do incerto,
Buscando a clareza do meio-dia.
XX
Lá onde os picos de granito tocam o Etéreo,
A história se grava em estátua de luz:
A alma que vence o seu próprio mistério,
E a névoa que foge quando a Mente conduz.
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