quinta-feira, 19 de março de 2026

A Dança na Carcaça

 

A Dança na Carcaça

Sob a fumaça amarela que o rio arrasta,

A cidade acorda com uma tosse seca.

Foi a aurora no dia do amor lapidado

Que se quebrou, como um copo de vodca, na calçada.


Entre latas vazias e promessas de ontem,

Um vulto cinzento saiu para passear.

Não há violinos, apenas o rádio insone

Tirando a poeira de um desejo vulgar.


A luz de mercúrio revela a ferida

No asfalto, no ventre da baleia morta.

Onde a esperança é uma carne esquecida,

E a salvação bate, em vão, na porta.


"Vem, meu amor, o táxi nos espera",

Diz a voz sem rosto, sem medo e sem fé.

Nesta praia de asfalto, a nossa era

É um osso roído, um resto de café.

Gabriel Athayde é escritor, pintor e fotógrafo de origem brasileira.

 Atualmente mora na cidade Guarulhos.









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