A Dança na Carcaça
Sob a fumaça amarela que o rio arrasta,
A cidade acorda com uma tosse seca.
Foi a aurora no dia do amor lapidado
Que se quebrou, como um copo de vodca, na calçada.
Entre latas vazias e promessas de ontem,
Um vulto cinzento saiu para passear.
Não há violinos, apenas o rádio insone
Tirando a poeira de um desejo vulgar.
A luz de mercúrio revela a ferida
No asfalto, no ventre da baleia morta.
Onde a esperança é uma carne esquecida,
E a salvação bate, em vão, na porta.
"Vem, meu amor, o táxi nos espera",
Diz a voz sem rosto, sem medo e sem fé.
Nesta praia de asfalto, a nossa era
É um osso roído, um resto de café.
Gabriel Athayde é escritor, pintor e fotógrafo de origem brasileira.
Atualmente mora na cidade Guarulhos.
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