quinta-feira, 19 de março de 2026

O ESPELHO INTERIOR - POESIAS E MEDITAÇÕES /


O Cântico do Peregrino

Nas dobras da noite, o tempo se cala,

Onde o espírito busca o seu centro,

A voz que na alma o silêncio descala

Revela o que vibra aqui dentro.

O mundo é um espelho de sombras e luz,

Que ao fundo do abismo o homem conduz.


A estrada é longa e o pé se cansa,

Entre o deserto e o jardim em flor,

O peito que oscila entre a dor e a esperança

Procura a essência do próprio valor.

Pois tudo o que nasce precisa morrer,

Para que o novo se possa colher.


Olho para o vale de névoa e de frio,

Onde as formas se perdem na treva,

Onde o pensamento se torna um vazio

E o vento os restos da vida carrega.

Ali jaz o rastro do que foi um dia,

Perdido no tempo, em vã agonia.


Ergue-se a torre de pedra e de pó,

Testemunha muda de um tempo que foi,

Onde o viajante se sente mais só

E a lembrança do antigo ainda lhe dói.

Era o moinho que o vento teve que sepultar,

Sem mais ter o trigo para o alimentar.


Onde havia o ritmo e o som da moenda,

Restou apenas o vácuo e o sutil,

Para que a mente enfim compreenda

Que o corpo é um sopro, um barco febril.

Nada se guarda que não se desfaça,

Pois tudo no mundo é sombra que passa.


Ergui meus olhos buscando o clarão,

No alto da serra, no cume do ser,

Aquele brilho que cura a visão

E faz a saudade enfim fenecer.

Aquela luz branca, sem mancha ou lugar,

O puro e eterno, outrora luar.


Mas a lua é fase, é reflexo, é memória,

Um jogo de espelhos no mar da ilusão,

Um breve capítulo na imensa história

Que pulsa no ritmo do meu coração.

Atrás da cortina de prata e de gelo,

Esconde-se o Uno, o fim do apelo.


Por que lamentar o que o vento levou?

Por que se prender ao que é cinza e pó?

O pássaro livre que o céu conquistou

Não teme o cansaço de sentir-se só.

A forma se quebra, o vaso se perde,

Enquanto a floresta de novo se verde.


O rio descansa no seio do mar,

E o nome que tínhamos deixa de ser,

Já não há margem para se segurar,

Nem o desejo de ainda vencer.

O grito se apaga na vasta jornada,

Ou porque não era mais nada.


Resta o silêncio, a paz de Sidarta,

O sorriso claro de quem atravessa,

A alma que enfim do seu fardo se aparta

E encontra a calma que nunca tem pressa.

Tudo é um ciclo de morte e de vida,

A luz revelada na sombra vencida.




FÁBULA ANTIGA

Vaguei por entre os vales da neblina,

Onde o tempo parece não passar,

Buscando a rima sutil e divina

Que o vento outrora soube me contar.

O mundo corre em sua pressa vã,

Enquanto eu busco a luz da manhã.


Olhei para as ruínas do castelo,

Onde o líquen abraça o granito,

E perguntei ao muro, em meu anelo,

O segredo que ali foi inscrito.

Mas a pedra guardava o seu calar,

Deixando o meu espírito a sonhar.


Há uma música muda na floresta,

Um cântico que a alma reconhece,

Uma memória antiga que nos resta,

Como uma prece que a noite tece.

A voz de Goldmund chamando o além,

Buscando a mãe que nenhum homem tem.


Tudo é um ciclo de morte e nascença,

Disse o rio com sua voz profunda,

Não há ganho que não traga a pertença,

Nesta corrente que o ser inunda.

Seja o Buda, o santo ou o pecador,

Todos navegam no mesmo tremor.


No peito travo a batalha feroz,

Entre o anjo e o lobo da estepe,

Um quer o céu, o outro o chão atroz,

Mas nenhum deles quer que eu me decepe.

A unidade é o porto derradeiro,

Onde o andarilho se faz companheiro.


Vi as crianças brincando na praça,

Alheias à angústia do pensar,

Vi como a idade o rosto transpõe,

E como o jovem aprende a chorar.

Pois todo saber cobra o seu quinhão,

No longo caminho da solidão.


O que buscamos no livro sagrado?

A letra morta que o homem criou?

Ou o sopro de vida, já esquecido,

Que a infância tão cedo nos roubou?

A sabedoria não se pode dar,

Só a vivência a pode ensinar.


Então parei diante do altar de cal,

E vi o musgo crescendo esquecido,

Onde o sol desenhava um vitral,

Sobre o pó de um tempo perecido.

E compreendi o que a rocha encerra,

O mistério mais antigo da terra.


São fábulas e sonhos, 

Signos do coração adormecido das pedras,

As memórias de tudo o que foi,

A essência sutil que nunca desgarra,

Mesmo quando o tempo tudo destrói.

No fim da jornada, o que nos conduz

É encontrar a nossa própria luz.


Que a noite desça com o seu véu de paz,

E o rio me leve à sua foz clemente,

Pois o viajante que o mundo refaz,

Sabe que a alma é um rio perene.

Tudo é Uno no Grande Sorriso,

A dor, a glória e o paraíso.




O Espelho Interior

Caminho só por entre as sombras do dia,

Onde a ilusão constrói cidades de vento,

E pergunto ao rio que na margem desvia:

Qual é o peso real de um pensamento?

O sol declina e o ouro se faz cinza,

A natureza dorme em seu leito de hera,

Enquanto a alma, que o cansaço vinga,

Pela palavra sagrada ainda espera.

Nada do que vejo parece ser meu,

Neste teatro onde o homem se perdeu.


Olho o cristal da fonte que o céu reflete,

E vejo a face de um estranho que cansa,

Um peregrino que a si mesmo submete

Ao jogo eterno de dor e de esperança.

Onde se oculta esse mundo, pergunto,

Se as montanhas são ecos de um antigo grito?

O universo inteiro parece um assunto

Trancado em um átomo, no peito infinito.

Se não no coração de vidro, quebrado,

Pelo desejo de ser por Deus tocado.


É um esplendoroso mar de incertezas,

Onde as correntes nos levam sem direção,

Misturando as misérias e as belezas

No mesmo pulso de uma só canção.

Não há caminho que não seja o de volta,

Para o centro do ser, onde a paz reside,

Onde a amarra do "eu" enfim se solta

E a luz do espírito em nós coincide.

O mestre e o louco bebem do mesmo cálice,

Esperando que a tempestade se acalme.


Que eu aprenda a ouvir o som do silêncio,

A rir do destino com o Grande Sorriso,

Pois todo o saber é apenas um incenso

Que queima na porta do meu paraíso.

A forma se desfaz, o nome se apaga,

Restando apenas o brilho do que é puro,

A alma que em águas profundas naufraga

Para encontrar o seu porto seguro.

Sou o que flui, o que fica e o que parte,

Nesta existência que é a mais alta arte.



O Beijo da Aurora

Tu vens a mim nas vestes simples do vento e da luz,

E meu coração se abre como a flor que a noite esqueceu,

Não buscas templos de pedra onde o incenso seduz,

Mas o altar do meu peito, que o Teu silêncio escolheu.

Minha vida é uma flauta de bambu em Tuas mãos,

Esperando o sopro que transforma o barro em canção,

Cruzando os campos de arroz e os velhos vãos,

Para encontrar Tua marca em cada pequena estação.

Pois a magia de cada começo é um beijo sobre o braço divino do eterno,

Um despertar de pétalas no seio do Teu inverno.


As estrelas são lamparinas que Tu acendes no escuro,

Para guiar o peregrino que ainda não sabe chegar,

O caminho é longo, o deserto às vezes é duro,

Mas sinto Teus passos no ritmo profundo do mar.

Não me dês a riqueza que pesa e que cega o olhar,

Dá-me a pobreza do lótus que flutua no rio,

A liberdade de quem nada tem para guardar,

E se aquece no Teu abraço quando o mundo faz frio.

Em cada alvorada, Tu escreves Teu nome no chão,

Com a caligrafia das sombras e a luz da oração.


Eu Te procurei em livros e em ritos distantes,

Mas estavas sentado à porta da minha humildade,

Teu riso brilhava nos olhos de mil viajantes,

E Tua voz sussurrava na voz da própria saudade.

O que é o tempo senão o Teu gesto de amor?

Um tecido de instantes que Tu teces sem pressa,

Onde a alegria se funde ao mistério da dor,

E o fim de uma estrada é onde outra começa.

Tu és o barqueiro que espera na margem final,

Com o remo de luz e a paciência imortal.


Deixa que minha alma se perca na Tua vastidão,

Como a gota de orvalho que se entrega ao oceano,

Que eu não peça nada além da Tua comunhão,

Liberto do medo e de todo o orgulho humano.

O sol se levanta e beija a face do mundo,

E eu sinto o Teu toque no orvalho que cai,

Neste encontro supremo, secreto e profundo,

Onde a sombra se apaga e o medo se esvai.

Sou Tua criança, brincando no pó do Teu dia,

Encontrando em Teu rosto a minha única guia.



O Despertar da Maya

-para Tagore

As estrelas brilham em silêncio no céu,

Onde o Ganges encontra o mar de cristal,

Eu sigo o rastro de um doce véu,

Neste ciclo eterno, entre o bem e o mal.

Busco a verdade que o tempo escondeu,

Na luz que emana de um sonho real,

Onde o espírito enfim se reconheceu,

Longe da pressa e do mundo banal.

A brasileira indiana de olhos sagrados de fogo é meu karma,

Despertando em mim uma paz ancestral.


Caminho por trilhas de incenso e de flor,

Ouvindo o som de uma cítara ao vento,

A vida é um mantra de puro louvor,

Um breve reflexo de um só momento.

Sinto o peso de um antigo temor,

Mas sigo a batida do meu pensamento,

Pois tudo o que resta é o divino amor,

Que cura a ferida e o sofrimento.

Meu coração é gelo e pó mas eu amo essa índia astral,

Nesse encontro sagrado de sentimento.


O sol se põe em tons de açafrão,

Refletindo o ouro de um olhar profundo,

Sinto a batida de um só coração,

Que pulsa no centro de todo o mundo.

Não há mais espaço para a solidão,

Nesse oceano imenso e fecundo,

Entre a prece e a santa meditação,

Eu me liberto do ego imundo.

A brasileira indiana de olhos sagrados de fogo é meu karma,

Um laço bendito, eterno e jucundo.


Maya desfaz suas tramas no ar,

Enquanto a alma encontra o seu cais,

Não preciso mais de um lugar pra chegar,

Pois somos apenas sementes vitais.

Aprendo com o tempo o que é despertar,

Seguindo os acordes de tons celestiais,

Deixando a correnteza me carregar,

Para além das fronteiras dos meus ideais.

Meu coração é gelo e pó mas eu amo essa índia astral,

Na paz infinita que não finda jamais.




No jardim onde a luz respira em silêncio

No jardim onde a luz respira em silêncio,

as pétalas guardam segredos do vento antigo,

e o tempo se curva como um pássaro cansado,

sobre a fonte clara da memória esquecida.

Ali, o instante é um fio de ouro suspenso,

tecido entre o sonho e a vigília do ser,

e a alma se despe de seus nomes pesados,

para tocar a essência invisível do mundo.

Tudo é leve, como se o universo pensasse,

num murmúrio branco de eternidade breve.


Caminho entre sombras que não são ausência,

mas presenças suaves de um outro sentir,

onde a vida se diz sem palavras ou gestos,

como um eco puro no fundo do infinito.

E encontro, no íntimo da luz que me envolve,

um vívido poder épico, que renovou a grande arte narrativa da paz,

fluindo sereno como um rio sem margens,

onde o ser se dissolve em harmonia secreta.

É o canto invisível que sustenta o mundo,

na delicada arquitetura do silêncio.


As árvores inclinam seus corpos antigos,

como sábios que escutam o sopro do tempo,

e as nuvens deslizam, lentas, sem destino,

pintando o céu com gestos de eternidade.

Há um rumor sagrado nas coisas mais simples,

um brilho oculto na poeira do caminho,

como se o universo fosse um poema suspenso,

à espera de olhos que saibam ouvi-lo.

E no fundo do ser, como um lago tranquilo,

repousa a verdade que nunca se explica.


Assim, sigo leve, desfeito em claridade,

sem peso de ser, sem desejo de forma,

apenas presença no fluxo do instante,

como um verso que nasce sem querer durar.

E tudo o que fui se dissolve no agora,

numa paz que não pede nem nome nem tempo,

onde a alma respira sua própria origem,

livre de si, como luz que não se conhece.

E nesse silêncio, mais vasto que o mundo,

encontro o começo que nunca termina.



Na luz tênue da tarde que se dissolve

Na luz tênue da tarde que se dissolve,

o mundo repousa em seu sopro mais íntimo,

como se cada coisa guardasse um segredo

que só o silêncio pudesse compreender.

Há uma música branca nas horas lentas,

um fio invisível ligando o ser ao nada,

e o coração, desprendido de seus ruídos,

escuta o que nunca se disse em palavras.

Tudo flutua num instante suspenso,

como um sonho que não deseja acordar.


Caminho entre sombras feitas de memória,

onde o tempo se curva em gestos de ausência,

e as coisas revelam sua face mais pura,

livres do peso de serem apenas coisas.

Sinto no ar um chamado profundo,

quase um eco de algo que ainda virá,

como se o futuro respirasse no agora,

em delicada e invisível transformação.

E nesse espaço onde o ser se dilui,

a vida se faz presença sem contorno.


Há um sopro antigo nas vozes do vento,

um rumor que atravessa eras e nomes,

como se o mundo fosse um livro inacabado

escrito na carne sensível do instante.

E nele percebo, em súbita claridade,

o voo altivo das imagens evocativas da sua poesia, que de forma visionária reflete as condições do nosso tempo,

como um clarão que rompe a névoa do ser,

e nos devolve à origem do olhar primeiro.

Tudo então se revela e se desfaz,

num equilíbrio frágil de eternidade breve.


Assim me perco no centro do silêncio,

onde não há forma, nem fim, nem começo,

apenas a vibração secreta do mundo

em sua nudez mais pura e intocada.

E sou menos eu, e mais esse instante,

que respira em mim como luz infinita,

livre das margens do nome e da história,

como um verso que nunca se conclui.

E nesse vazio pleno de presença,

descubro o ser como um eterno nascer.



MEDITAÇÕES

Plenitude do ar: tudo é presença,

o dia ergue sua forma perfeita,

nada falta ao instante que respira,

tudo vibra em exata harmonia.

A luz não pesa: afirma o mundo,

cada coisa ocupa seu lugar,

o real se oferece sem mistério,

como um fruto aberto à consciência.

Ser é bastar-se em sua evidência,

ser é durar no agora absoluto.


A claridade ordena os contornos,

não há sombra que negue o sentido,

tudo ascende à precisão do instante,

como um canto firme e necessário.

O universo não hesita em ser,

e em sua ordem o homem se integra,

respirando a unidade do todo,

sem fissura entre o dentro e o fora.

Tudo é forma que se reconhece,

tudo é ritmo que se confirma.


E então surgem, puras, sem excesso,

meditações indianas, meditação sobre o rio dos astros, amor,

como linhas que atravessam o tempo

sem romper a limpidez do dia.

Nada obscurece sua presença:

são ideias tornadas evidência,

claras como o céu que as sustenta,

necessárias como o próprio ser.

Pensar é ver com mais nitidez,

amar é aderir à plenitude.


Assim o mundo se cumpre em si,

sem faltar ao gesto de existir,

cada instante é total e suficiente,

cada forma é exata em sua luz.

Não há vazio: tudo se afirma,

não há perda no curso do tempo,

pois o ser se renova em presença.

E o homem, lúcido, participa

dessa ordem que nada excede,

dessa alegria de simplesmente ser.



LAMENTO CIGANO EM PRECE INDIANA

A lua derrama seu sangue de prata

sobre os campos de pedra e silêncio,

onde o vento canta nomes antigos

e as oliveiras tremem de memória.

Há um cavalo negro na distância,

ferido de sombra e madrugada,

e um canto rouco sobe da terra

como um grito esquecido nos ossos.

A noite veste seus véus mais densos,

e o mundo arde em segredo profundo.


Cigana, teus olhos são punhais quietos,

espelhos quebrados do céu em fuga,

teu passo ecoa nas ruas desertas

como um presságio que ninguém detém.

E eu, perdido na febre do instante,

ouço teu nome na boca do vento,

como se fosse raiz ou destino

cravado no centro do meu sangue.

Tudo em ti é mistério e distância,

tudo em mim é chamado e vertigem.


Cigana antiga e fria, eu nunca 

vi tantos olhos assim no meu corpo de raio,

disseste, rasgando a noite em duas,

como se o tempo se abrisse em ferida

e mostrasse seu fundo de estrelas.

Teu olhar atravessa o meu corpo

como lâmina feita de silêncio,

e nas veias acende um incêndio

de luas partidas e sonhos mortos.

Nada escapa ao teu sopro sombrio,

nada vive depois do teu canto.


E no fim, só resta o vento escuro

rodopiando na praça vazia,

com seu manto de pó e lamento

e seu riso de faca na noite.

O cavalo já não tem caminho,

a lua se afoga em seu próprio brilho,

e a terra recolhe teus passos

como quem guarda um segredo eterno.

Cigana, teu nome é sombra e chama,

e em ti morre tudo o que vive.



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