MÁQUINA DE ESCREVER
DO CORAÇÃO,
e outros versos
O Crepúsculo na Alma
O mundo gira em seu eterno cansaço,
Enquanto guardo o tempo em meu altar.
Sinto o peso de cada antigo passo,
Frascos de dias em que me sento como um triste sol no mar.
As águas frias beijam o horizonte,
Numa canção de vidro e de lamento.
Busco a pureza em uma esquecida fonte,
Mas sou apenas sombra e pensamento.
Há uma beleza no que se desfaz,
No brilho que se apaga na corrente.
A dor e o ouro buscam a mesma paz,
No ciclo que se finda, docemente.
Deixo o cansaço enfim se dissolver,
Pois na penumbra a alma se agiganta.
Para que o novo possa renascer,
É preciso aceitar o que o silêncio canta.
O Aroma do Labirinto
A tarde tomba em muros de memória,
Onde o caminho se perde no pó.
Procuro o rastro de uma antiga glória,
Mas no caminho, encontro-me só.
O vento sopra o sal de uma outra era,
Nas ruínas onde o tempo se desfez.
Minha alma, errante e eterna prisioneira,
Clama pelo que não vê mais uma vez.
Lilás de Creta, por que não te encontro?
Se o teu perfume ainda vive em mim.
Sou o viajante que, em pleno encontro,
Ainda busca o jardim que não tem fim.
Pois o que é belo vive no mistério,
E a flor mais pura é a que não se colhe.
Resta o silêncio, vasto e tão sério,
Até que a noite, enfim, me acolha e molhe.
No Olimpo, onde o fogo era nuclear
No Olimpo, onde o fogo era nuclear,
Resta o eco de dores que a alma feriu.
Um vulcão extinto, a fumaça a pairar,
O amor que outrora no peito fluiu.
A herança da dor, peso no caminhar,
Lembranças sagradas que o tempo não apaga.
Na busca por cura, no reencontrar,
O fogo extinto que a alma afaga.
A dor é ponte, caminho a trilhar,
Para o eu mais profundo, a luz a encontrar.
No silêncio interno, a se libertar,
A lição da cura, a se revelar.
Não temas a dor, ela te guiará,
Ao Olimpo interior, onde a paz reinará.
O fogo extinto se reacenderá,
Num amor mais puro, que te curará.
O Crepúsculo do Olimpo
No mármore frio jaz a glória de outrora,
Deuses gregos vãos, heróis fracassados,
O vento que passa, o tempo que devora,
Sonhos de ferro em pó transformados.
Onde havia o raio, hoje habita o silêncio,
A saga do forte tornou-se um lamento.
O homem desperta do antigo vício,
Buscando o caminho que nasce por dentro.
Não busques na espada a luz da vitória,
Nem peças auxílio a quem já ruiu.
A alma só guarda a verdadeira história,
No abismo sagrado que ninguém viu.
Que morram os mitos, que caia a coroa,
Pois só na ruína o ser se desata.
A vida é um rio que em nós ressoa,
E a paz verdadeira é o que nos resgata.
O Brilho da Memória
Caminho por vales de sombras e luz,
Buscando o rastro de um antigo calor.
Na alma, o crepúsculo agora conduz
O sol das coisas que já se foram do amor.
Não chamo o que foi, nem tento prender
A folha que o vento do outono levou.
É preciso a coragem de saber perder
Para entender o que em nós se tornou.
Os deuses se calam, o templo ruiu,
Mas resta um perfume no ar a pairar.
Quem muito amou e quem muito sentiu,
Aprende na ausência o que é despertar.
Que a luz desse ocaso nos venha ensinar
Que o fim é apenas um novo começo.
Pois tudo o que morre volta a brilhar
Num mundo interior que não tem preço.
Pulsação de Ébano
Nas sombras onde a alma se recolhe,
Onde o silêncio tece a solidão,
Um ritmo antigo o espírito acolhe:
Máquina de escrever do coração.
Entre as engrenagens de um sonho raro,
Onde o destino em tintas se traduz,
O sentimento pulsa, firme e claro,
Buscando em ti a sua única luz.
Pulsa por ti, em rimas de ansiedade,
Como o monge que reza em seu altar;
És a distância e és a claridade,
O porto onde o meu barco quer ancorar.
Negra ébano Vênus, deusa obscura,
Tua imagem é o verso que não finda;
Em cada batida, a escrita pura
Te faz em mim mais próxima e mais linda.
O Canto do Rio
Onde a correnteza molda o destino,
E a alma busca o seu próprio centro,
Ouço o murmúrio de um som divino
Que nasce fora, mas vibra por dentro.
Preta do rio, de águas profundas,
Onde o mistério se esconde no leito;
Nas tuas curvas, calmas ou rotundas,
Encontro o mundo guardado no peito.
Em cada margem, calor arrepio,
Onde o instinto não aceita o temor;
Navego o curso de um longo vazio,
Rendido a esse selvagem amor.
O espírito é tempera, aço sem dor,
Forjado no fogo da busca incessante;
Sou o poeta, o rio e o louvor,
Neste caminho de eterno errante.
Eu possa, enfim, tocar o paraíso
Entre a bruma do vale e o eco do monte,
Caminha o espírito, sedento e cansado,
Buscando a pureza na fonte remota,
Onde o tempo se perde, por Deus olvidado.
O mundo é um véu de cores febris,
Que oculta a essência em sua teia vã,
E a mente, que oscila entre sombras e sóis,
Anseia o frescor da luz da manhã.
No peito, o peso de um segredo antigo,
Onde a paz se desfaz no trilho inimigo.
A trilha serpenteia por entre os espinhos,
E o rio murmura canções de desterro,
Pois todo saber que se compra com dor
É apenas o brilho fugaz de um erro.
Ó busca incessante por trás das palavras,
Onde o silêncio é a voz que nos fala,
A vida floresce no centro do nada,
Enquanto a vaidade humana se cala.
No abismo profundo da própria verdade,
O homem descobre sua real brevidade.
Solidão da alma, te grito ó Sidarta,
Tu que ouviste o som da correnteza,
Que viste na folha que cai sobre o chão
A face divina da santa beleza.
Não quero os ritos, nem leis de granito,
Pois o meu martírio é o fogo que resta,
Um grito que sobe ao céu infinito,
Perdido no meio da espessa floresta.
Ensina o caminho de volta ao repouso,
Onde o ser se despoja do que é orgulhoso.
A noite desce com mãos de veludo,
E o cansaço invade meu pobre destino,
Deixa meu sonho encontrar ela pelo menos,
Nessa margem calma do mar cristalino.
Pois se a vigília é um deserto de areia,
Que o sono me traga a visão do sagrado,
A alma que em outra se funde e rodeia,
Liberta de todo o desejo passado.
Assim, no mistério do Grande Sorriso,
Eu possa, enfim, tocar o paraíso.
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