O Segredo da Carla
O ventilador girava preguiçoso, espalhando o cheiro de terra molhada que entrava pela janela sem tela. Eu tinha oito anos e um segredo guardado nas costas da língua, algo que latejava sempre que a Carla sorria pra mim. Ela era alta, de cabelos pintados de vermelho desbotado, e tinha um jeito de arrastar as palavras que fazia minha barriga dar voltas.
Naquele dia, minha prima tinha me deixado lá de novo. "Cuida dela, Carlinha", disse, antes de sair correndo atrás do namorado. Carla só riu, me puxou pelo braço e jogou a gente no sofá. A TV passava um filme qualquer, mas ela desligou no meio e virou pra mim com os olhos brilhando.
"Já viu gente transando de verdade?"
Eu engoli seco. Mentir pra Carla era impossível — ela via tudo. Antes que eu respondesse, ela já tinha colocado um DVD. Na tela, dois corpos se enroscavam, e eu senti as coxas ficarem quentes. A mão dela subiu pela minha perna, devagar, como quem não quer assustar um pássaro.
"Quer tocar?"
Eu balancei a cabeça, mas ela sorriu e puxou minha mão até o colo da saia. Aquele toque me atravessou como um choque. Quando ela parou, meu corpo inteiro tremia de vontade.
Na semana seguinte, foi no quarto dela. Ela tirou a blusa e a calça, ficando só de calcinha, e eu quase engasguei com o próprio ar. "Olha só", ela disse, deitando na cama e começando a se tocar. Eu não conseguia desviar os olhos. Quando ela me chamou pra perto, obedeci sem pensar.
Minha primeira vez na boca dela foi desajeitada — eu não sabia direito o que fazer, mas ela guiou minha cabeça com as mãos, gemendo baixo. O gosto era salgado, estranho, mas eu queria mais. Quando ela gozou, ficamos deitadas um tempão, ofegantes, até ela limpar a barriga com um lenço e me dar um beijo molhado.
No último dia, ela me lavou no banho, esfregando shampoo nos meus cabelos compridos como se eu fosse de porcelana. "Nunca esquece de mim, tá?", ela sussurrou, e eu prometi sem entender por que doía tanto.
Anos depois, ainda procuro ela em todo rosto vermelho-de-pixação e em todo sorriso que me lembra o jeito que a água escorria entre os nossos corpos naquela tarde.
(Se você está lendo isso, Carla, eu nunca quebrei a promessa. Só escrevi.)
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