quarta-feira, 4 de março de 2026

O Dom de Dezembro

 



O calor de dezembro pesava sobre o jardim, um mormaço que parecia estagnar o tempo entre as mangueiras. Nicole emergiu da piscina como uma visão anfíbia, os cabelos cor de malva grudados à nuca, a respiração entrecortada pelo susto do degrau em falso. Eu a amparei antes que o mundo a ferisse. Minha mão, áspera e vasta, estranhou a fragilidade daquela cintura de junco, sentindo sob a palma o tremor de um animal capturado.


— Obrigado, seu Nick... — murmurou ela.


O sorriso era uma fenda de luz. Através do biquíni úmido, a juventude se impunha, tesa e absoluta, desafiando a gravidade dos meus anos. Meus dedos, num gesto que a memória teimava em registrar como acidental, traçaram o caminho da água que deslizava pelo vale do peito. Era um toque de posse e de exílio.


— Cuidado, princesa — respondi, a voz submersa no desejo.


Do outro lado do espelho d'água, o grito de Maria rompeu o feitiço, uma nota de ciúme ou de tédio. Cíntia, da espreguiçadeira, limitou-se a erguer os óculos escuros. O olhar dela, indecifrável como as águas do Rio Negro, guardava uma cumplicidade silenciosa enquanto seus lábios eram torturados pelos próprios dentes.


À noite, a casa mergulhou naquele silêncio povoado por fantasmas domésticos. Nicole flutuava pelos corredores vestindo uma de minhas camisas desbotadas, uma relíquia de algodão que mal ocultava o que a natureza lhe dera de presente. Ao curvar-se para recolher um objeto caído, a luz da varanda revelou o segredo: a renda fina, a promessa de uma anatomia que subvertia as expectativas, um volume suave e ambíguo que pulsava sob o tecido.


— Está me olhando, seu Nick? — perguntou, a voz oscilando entre a timidez da infância e a astúcia da mulher que sabe o que desperta.


Senti, então, a presença de Cíntia às minhas costas. Suas mãos, firmes e cúmplices, pousaram sobre minhas omoplatas, conduzindo-me para o abismo.


— Vai lá — sussurrou ela, o hálito quente contra meu pescoço.


Era o meu aniversário. E naquela casa de sombras e varandas, o presente não era um objeto, mas a travessia de uma fronteira que nunca mais se fecharia.

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