O Cheiro do Mar e Outros Sabores
O Despertar de Jeniffer
O espelho não mente, mas ajuda a criar novas verdades.
Marcos morreu entre uma aplicação de hormônio e outra. O que sobrou foi a silhueta afinada, o bumbum rígido pela musculação obsessiva e a pele sem pelos, lisa como o mármore de um necrotério chique. A esposa viajava com os "amigos". Eu ficava com o Sebastião. No começo, era um jogo de cena em São Miguel Paulista. Duas conduções, um metrô e a chave na fechadura. Lá dentro, eu virava a doméstica, a periguete de avental e salto agulha, limpando o pó e esperando o Tião chegar do turno de Uber. Ele chegava com cheiro de asfalto e cansaço. Eu o esperava de bruços, a bunda oferecida como um banquete. Ele comia.
Mas o vício da performance pede palcos maiores.
Certa sexta, o Gin-tônica deu o empurrão que faltava. Cera quente. Depilação total, exceto pelo triângulo ralo sobre o que restava da minha masculinidade. Cílios postiços, batom vermelho-sangue, peruca morena. O minivestido era uma afronta: vermelho, curto o suficiente para que cada passo revelasse o que deveria estar escondido.
Saí. O elevador cheirava a desinfetante e indiferença. O vizinho olhou, engoliu em seco e calou-se. No metrô, o primeiro contato. O roçar de um estranho, a mão pesada na nádega, o sussurro sujo: "Lá em casa...". Senti o pau dele duro contra minha coxa. Eu rebolava. A humilhação era o meu combustível.
A descida em São Miguel foi o mergulho no esgoto.
No fundo do ônibus, o grupo de rapazes não queria diálogo. Queriam carne. "Viadinho", "Travesti safada", "Chupa aqui". Palavras que cortavam como navalha. Dois deles exibiram o sexo, bruto e latejante. Eu não resisti. No último banco, entre o sacolejo do chassi e o cheiro de óleo diesel, virei o receptáculo de todos eles. Um por um. Levaram minha calcinha como troféu. Bebi o sêmen morno como quem toma um sacramento profano.
Voltei para casa no domingo à noite. O porteiro, Adélio, barrou a entrada. Tive que explicar a metamorfose. — Você está mais gostosa que o Marcos — ele disse, com os olhos fixos no meu decote.
Ali a ficha caiu. Marcos era um burocrata, um corno frouxo que pagava as contas para a esposa se divertir com machos de verdade. Jeniffer era poder. Jeniffer era o cuzinho guloso e a boca esperta que a cidade desejava.
Agora, o dia pertence ao Marcos. A noite é da Jeniffer. O Sebastião? Virou estatística. Agora ele é o meu corno. Traio-o com a mesma facilidade com que retoco o batom. Entre a cozinha e o quarto, entre o asfalto e o lençol, eu finalmente descobri quem manda no jogo.
Beijos, Jeniffer.
A Ilha
O litoral sul em baixa temporada é um cemitério de areia e neblina. Fui para a casa da família com o pau pulsando e a paciência curta. Quatro dias de deserto. No quinto, a praia de sempre, mas o cenário mudou.
Vi a silhueta de longe. Morena, alta, biquíni que não escondia nada e prometia tudo. Me aproximei sob o pretexto banal de um cigarro. O rosto era perfeito, mas o olho clínico não enganava: era um travesti. Tábata. O nome soava como um segredo de alcova. Estava triste, disse que terminara um namoro. Joguei o jogo clássico: fingi que via nela apenas a mulher. A lisonja é o lubrificante da alma.
— Passa o bronzeador? — ela pediu.
Aceitei com a calma de um carrasco. Minhas mãos percorreram a pele besuntada, descendo pelas coxas até a fronteira proibida da bunda. Eu a apalpava com a desculpa da proteção solar. O volume na minha sunga era uma confissão que ela lia com malícia. Ficamos de pé, os corpos colados, o cheiro de óleo e mar. O beijo foi longo, uma troca de salivas e línguas que anulou o resto do mundo. Sentir o pau dela crescendo contra o meu era o ápice da minha verdade urbana.
Fomos para a água. Praia rasa, sem ondas. Encoxei-a por trás, sentindo o atrito do couro e do sal. Eu queria que ela se sentisse a fêmea; eu queria ser o macho que a cidade não permite ser.
O ato final foi nas pedras. Um altar de granito para o sacrifício. Arranquei o biquíni. Os seios eram firmes, mas meu alvo era outro. Quando a parte de baixo desceu, o pinto surgiu: pequeno, tenso, uma joia de carne com o visco da excitação na ponta. Chupei-o com a fome de quem guarda um desejo por décadas. Engoli a porra dela como se fosse comunhão.
Depois, a troca. Ela me chupou com olhos de vadiagem técnica enquanto eu punhetava o que restava do seu vigor.
— Me come, seu safado. Sou tua fêmea — ela rosnou, a voz agora perdendo o filtro da civilidade.
Enfiei a borracha e penetrei o cu. De pé, contra a pedra bruta. O prazer era um curto-circuito de xingamentos e suor. Gozamos juntos, um espasmo de carne contra o mineral frio.
Voltamos para o mar para lavar os pecados. Ficamos lá, abraçados como namorados de vitrine, fingindo que aquela ilha de prazer não seria engolida pela rotina na manhã seguinte.
Esta é uma narrativa que lida com a subversão de papéis e o instinto. Na mão de Rubem Fonseca, os detalhes sentimentais dão lugar à aspereza do desejo e à ironia da sorte. O final feliz não é romântico, é uma vitória da carne sobre as convenções.
Aqui está a sua história sob a ótica fonsequiana:
A Menina e Eu
Trinta e dois anos. Um corpo esculpido com hormônios, disciplina e a paciência de quem sabe que a beleza é a única moeda que não desvaloriza na rua. Eu era Brenda. O passado de programas ficara para trás quando a dona de uma fábrica de jeans, amiga da minha mãe, me deu um crachá. A regra era clara: proibido sexo, proibido confusão, proibido ser o que eu era fora dos portões.
O destino tem senso de humor. Um mês depois, chegou Silvia. Dezoito anos, vinda da universidade, pele de porcelana e olhos que escaneavam a fábrica em busca de entretenimento. Alguém soprou no ouvido dela a minha natureza. Para ela, eu não era um problema; eu era uma curiosidade antropológica.
Ela começou a me caçar. Trazia peças para eu pregar botões, inventava inventários no depósito. Silvia não queria jeans; queria saber de sexo. Eu sentia o cheiro da curiosidade dela a metros de distância.
Um dia, no depósito entre pilhas de brim, ela apareceu de moletom e alças finas. Brenda pra cá, Brenda pra lá. — O que você quer, Silvia? — disparei, seca. — Eu sei o que me falaram... — ela gaguejou, os olhos descendo para a minha calça.
O volume não mentia. Pela primeira vez na vida, diante daquela brancura loira, senti o homem que eu soterrei tomar as rédeas. O instinto é um bicho estúpido que ignora o gênero. — Você nunca viu um? — provoquei. — É enorme — sussurrou ela, hipnotizada. — Quer ver? — Minha voz saiu grossa, sem os filtros da cortesia. — Eu mostro. Mas com uma condição: eu enfio no seu cu.
Silvia engoliu em seco. O silêncio no depósito era interrompido apenas pelo barulho das máquinas lá fora. Ela aceitou. Amigas, ela disse. Amigas não fazem o que fizemos.
Abaixei o moletom. A bunda era um bibelô de carne macia. Entrei com calma, sentindo o calor apertado que eu, até então, só conhecia pelo outro lado da moeda. A sensação era bruta, deliciosa. Eu não era mais a Brenda dos programas; eu era o invasor. Silvia gemeu com a competência de uma veterana. Antes do fim, ela se virou e abocanhou o meu prazer com uma fome profissional. Gozei na boca dela, um batismo de porra e espanto.
O conflito existencial durou o tempo de um cigarro. Depois, virou rotina. Comia a filha da patroa entre as araras de calças jeans. O crime perfeito.
Quando ela teve que voltar para os estudos, o jogo virou drama. Silvia confessou a paixão à mãe. A velha ameaçou me colocar no olho da rua, mas a menina deu o xeque-mate: se eu saísse, ela sumia do mapa. A patroa engoliu o orgulho e o esporro. Consentiu o absurdo.
Silvia se formou. Voltamos para a mesma cidade. Com o dinheiro da sogra, compramos a casa. Dois anos de convivência e a biologia resolveu cobrar a conta da ironia. Eu tinha o material necessário; ela tinha o ventre pronto. Engravidei-a.
Hoje, temos uma menina de seis anos. Olho para as duas e entendo que a vida não segue roteiros. Eu, Brenda, sou o pai. Silvia é a mãe. E no fundo, entre um vestido e um terno, o que manda é a carne que venceu o juízo.
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