Muitos anos depois, diante do espelho de moldura descascada daquele hotel de passagem, Sophia haveria de recordar a madrugada remota em que descobriu que a traição de seu marido tinha o nome de um pintor e o corpo de uma miragem. Ela o encontrou imerso no sono dos justos, enquanto o pequeno artefato de vidro e luz em suas mãos revelava o segredo: Gabo trocara a rotina dos lençóis de linho pelas curvas monumentais de Picasso, uma criatura de beleza hermafrodita que parecia ter sido esculpida pelo próprio barro da febre. Sophia não sentiu a fúria das esposas traídas de sua linhagem; sentiu, antes, a curiosidade geológica de quem descobre um novo continente. Em vez de invocar o divórcio — essa invenção moderna que não cura a solidão — ela enviou um desafio através do éter: “Se queres me humilhar, que o faças com a grandiosidade dos sacrifícios antigos.” A noite marcada tinha o cheiro de chuva represada e jasmim podre. Emanuely Monique chegou primeiro, caminhando sobre saltos que batiam no chão com a autoridade de uma sentença de morte. Trazia no olhar a malícia de quem já viu o fim do mundo e não se impressionou. Logo depois, surgiu Picasso, a musa do adultério, carregando no sorriso a familiaridade de quem já conhecia os mapas anatômicos de Gabo melhor que a própria igreja. O encontro no quarto do hotel não foi um pecado, mas um ritual de fundação. No silêncio denso da alcova, Sophia entregou-se ao desconhecido, bebendo da virilidade de Emanuely como quem busca uma fonte de juventude em terra estrangeira. Gabo, perdido entre o assombro e a luxúria, foi tragado pelo abismo de Picasso. Foi então que a ordem natural das coisas se dissolveu. "Vira, meu homem," sentenciou Picasso com uma voz que parecia vir do fundo de um poço. "Hoje não és senhor, mas território conquistado."
No clímax daquela batalha sem vencedores, Picasso segurou Sophia pelos cabelos — não com ódio, mas com a precisão de um artista diante de uma tela virgem. Os quatro corpos se transformaram em um único organismo de gemidos e espasmos, uma máquina de carne movida pela nostalgia do impossível. Quando o silêncio finalmente retornou, trazendo consigo o rastro de leite quente que escorria pelo rosto de Sophia como uma unção profana, ela olhou para o marido. Gabo parecia um náufrago que acabara de descobrir que a terra firme era uma ilusão.
Sophia sorriu, e naquele sorriso havia a sabedoria de cem anos de solidão compreendida em um único instante.
— Agora — disse ela, limpando a face com a dignidade das rainhas caídas — você me deve uma explicação. Ou, quem sabe, a eternidade desta mesma noite.
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