quarta-feira, 4 de março de 2026

A Manga e o Batom

 


PERSONAGENS:

  • IASMIN: 23 anos, travesti, olhos carregados de rímel barato, o porte de uma diva de Technicolor em um cenário de subúrbio.

  • JÚLIO: 17 anos, o corpo em descompasso com o desejo, cheirando a sabonete comum e medo.

CENÁRIO: Um terreno baldio. O som de cigarras ao fundo. Uma mangueira que parece um monstro de braços abertos sob o céu cor de goiaba.


JÚLIO (A voz quase não sai) Iasmin? É você?

IASMIN (Sem olhar para ele, os olhos fixos na brasa do cigarro) Demorou, gatinho. Achei que a mamãe não tivesse deixado o neném sair para brincar na terra.

JÚLIO Eu vim correndo.

IASMIN Vem cá. Olha o meu sapato... estragando nesse chão de lama por sua causa. Acha justo?

(Ela solta a fumaça lentamente, como uma vilã de filme noir que, no fundo, só quer ser a mocinha. Com um gesto dramático, ela puxa Júlio pelo cinto. O metal range.)

Ajoelha. Quero ver se você é tão devoto quanto diz.

JÚLIO Tá... tá úmido aqui.

IASMIN (Sussurrando, a boca perto do ouvido dele, o hálito de menta e tabaco) Tá com medo do quê? De se sujar ou de gostar? Sente isso... é seda, Júlio. Veio de longe.

(Ela levanta a renda do vestido com a lentidão de uma cortina de teatro se abrindo. O contraste é a marca registrada de Puig: a delicadeza da calcinha rosa e a realidade pulsante do corpo. Júlio é o espectador que subiu ao palco por acidente.)

JÚLIO (Pensamento: Ela parece uma estátua. Uma dessas santas de igreja, mas feita de carne e pecado. O gosto... o gosto deve ter cor de cinema.)

IASMIN Isso... devagar. Não precisa ter pressa, o filme não acaba agora. Usa a língua, gatinho. Me mostra que você aprendeu a lição de casa.

(O silêncio do terreno baldio é cortado apenas pelo som rítmico, quase musical. Júlio aperta as nádegas dela, sentindo a força de quem teve que lutar para ser mulher. Iasmin arqueia as costas, a cabeça jogada para trás contra o tronco áspero da mangueira.)

IASMIN Ai... tá vendo como você me deixa? Eu tô derretendo, Júlio. Me segura... não deixa eu cair. Eu vou... eu vou te dar tudo o que você quer agora. Bebe, gatinho. Bebe a minha glória.

(Um grito contido. O batom vinho borra a casca da árvore, um autógrafo de sangue e cera. O clímax é uma explosão silenciosa no crepúsculo.)


IASMIN (Limpando o canto da boca com o dorso da mão, recuperando a pose de diva em segundos) Amanhã a gente continua a sessão. O cinema fecha agora.

(Ela acende outro cigarro. O clique do isqueiro é o ponto final. Ela caminha em direção à esquina, os saltos batendo no asfalto como créditos subindo na tela. Júlio permanece no chão, sentindo o sal e a doçura, o protagonista de um filme que ninguém mais vai ver.)

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