quarta-feira, 4 de março de 2026

O Jumento Sedutor - variações

João era um coitado. Pobre como terra seca, burro que nem uma porta, e infeliz como samba de preto velho. Andava molembento, arrastando os pés como se carregasse o peso da desgraça do mundo. Mas tinha um dom — um dom que nem ele mesmo sabia direito como usava direito: um cacete grande feito uma jabiraca e um xamego que deixava as mulheres do sertão arrepiadas como folha de juazeiro no vento.  


Dona Maricota, esposa do coronel Finitro — homem traiçoeiro que matava por dente de ouro e traía por vício —, foi a primeira a cair na rede do rapaz. Viu João nu num banho de rio, aquele tronco duro balançando como pau de carga, e ficou com a boca seca de desejo. Chamou-o para dentro do casarão na desculpa de ajudar a carregar um saco de farinha, mas mal fechou a porta, já estava de quatro no chão de tijoleira, gemendo como pata no cio.  


João meteu com a força de um jegue no cio, e Dona Maricota gritou:  


— Ai, Jesus! É o diabo em forma de homem!  


O coronel Finitro, que tinha ouvido fino como rastejador de cobra, escutou os gemidos e veio correndo com o facão na mão. João, esperto como tatu na seca, pulou pela janela e sumiu no mato, deixando Dona Maricota gemendo ainda no chão.  


— Cadê o safado?!— berrou Finitro.  


— Foi o vento, meu bem! — mentiu a esposa, ainda tremendo das pernas.  


E assim, João, o jumento sedutor, continuou sua sina — pobre, burro e infeliz, mas deixando um rastro de mulheres de pernas bambas e homens com ódio no coração.  


A Geometria do Desejo: João e a Medida do Prumo



João não era um homem; era uma omissão da sorte. Habitava o avesso da inteligência, lá onde a palavra não encontra o conceito. Arrastava a existência como quem transporta um fardo invisível e desnecessário pelas areias do sertão. Contudo, em seu corpo, a natureza depositara uma ferramenta de desmedida: um membro-totem, um eixo rígido que parecia buscar o centro da terra, dotado de um magnetismo cego e absoluto.


Dona Maricota, do alto de sua alcova de sombras, viu a epifania. No rio, João desnudava-se. Não era a nudez da carne, mas a exposição de uma arquitetura bruta. Ela contemplou aquele apêndice de fúria e madeira, o pêndulo que ignorava a gravidade do Coronel Finitro. A sede que a acometeu não era da garganta; era uma sede de simetria, um vácuo no baixo ventre que exigia o preenchimento daquele ângulo reto.



No casarão, o encontro foi uma colisão de silêncios. O pretexto do fardo de farinha desintegrou-se diante da urgência dos corpos. Maricota não se entregou; ela se desdobrou sobre os tijolos, oferecendo-se como o pergaminho sobre o qual João escreveria sua única e violenta caligrafia. O ato foi uma mecânica de pistões e gemidos abafados, um ritual de aragem em solo que o Coronel, em sua tirania estéril, jamais soubera cultivar.


— É a manifestação do maligno sob a veste do barro! — exclamou ela, enquanto a carne reconhecia o seu limite.


A audição do Coronel era um labirinto de suspeitas. O ranger das tábuas e o ritmo sincopado do prazer chegaram a ele como um insulto à sua soberania de facão e dente de ouro. Quando a porta cedeu, o espaço já estava vazio da presença física de João. Restava apenas o deslocamento do ar e o rastro de uma masculinidade ancestral que a janela, em sua moldura de fuga, engolira.


— Onde se oculta a fera? — o brado de Finitro ecoou, cortando o vácuo.


— Apenas o vento, senhor, que fustiga as frestas e inventa fantasmas — respondeu Maricota, as pernas ainda desenhando o compasso daquela ausência.


João retornou ao pó, à sua mudez de espírito e à sua indigência. Continuava sendo o nada, mas um nada que possuía o prumo do mundo, deixando para trás um rastro de mulheres que, pela primeira vez, haviam compreendido a profundidade de um abismo.

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