Na terceira gaveta da escrivaninha — aquela que emperra nos dias úmidos — conservo uma coleção de começos. São frases que não avançam, personagens que respiram apenas uma vez e retornam ao limbo, decisões suspensas como lâmpadas sem teto. Ali habita minha indecisão: não a grave, que paralisa exércitos e governos, mas a ridícula, doméstica, quase risível, que me impede de atravessar a rua quando o semáforo já se oferece verde. Hoje acordei com a impressão de que o planeta girava por minha causa. Não por soberba, mas por constrangimento: se eu não me levantasse, se não escolhesse entre o café forte ou o fraco, entre escrever ou lavar as mãos, talvez a Terra hesitasse também — um segundo apenas — e os oceanos derramassem sua dúvida nas praias.
É um pensamento exagerado, reconheço. Contudo, há exageros que nos sustentam.
Desço à padaria da esquina. O padeiro pergunta: “O de sempre?” E ali se abre o abismo. O de sempre é uma capitulação. Aceitar o de sempre é admitir que sou previsível, que minha biografia pode ser resumida em um pão francês e dois dedos de manteiga. Mas recusar o de sempre exige uma coragem que não possuo às oito da manhã. Sorrio, portanto, com a covardia dos que sobrevivem, e digo: “Sim, o de sempre.”
Enquanto mastigo, observo os outros. Um homem consulta o relógio como quem interroga o destino. Uma mulher organiza moedas sobre a mesa, alinhando-as com precisão militar. Um menino pergunta à mãe se as formigas sabem para onde vão. A mãe responde que sim, que as formigas sempre sabem. O menino parece decepcionado. Talvez seja isso o que fazemos neste planeta Terra: fingimos que sabemos para onde vamos. Inventamos compromissos, desenhamos calendários, erguemos prédios e religiões — tudo para disfarçar o fato de que estamos indecisos diante do simples: continuar ou não continuar.
Volto para casa com o jornal debaixo do braço. As manchetes gritam certezas: números, quedas, ascensões, catástrofes previstas. O mundo parece decidido em sua própria ruína ou glória. Apenas eu permaneço suspenso entre começar um conto ou fechar as janelas.
Sento-me à escrivaninha. Abro a terceira gaveta. Retiro um dos começos:
“Era uma vez um homem que…”
E paro.
Não sei se o homem deve partir ou ficar. Se ama ou se trai. Se morre cedo ou se prolonga até tornar-se irreconhecível. A ridícula indecisão retorna, senta-se à minha frente e cruza as pernas. Ela me observa com uma paciência antiga, como se dissesse: “Escolher é excluir mundos.”
Fecho os olhos. Lá fora, um caminhão passa, um cachorro late, alguém discute sobre política, outro alguém ri alto demais. A Terra continua girando — apesar de mim.
Então compreendo, com uma espécie de humildade tardia: não estamos aqui para decidir o mundo, mas para habitá-lo. A indecisão é apenas a sombra da consciência. As formigas talvez saibam para onde vão porque não imaginam alternativas.
Escrevo, enfim:
“Era uma vez um homem que hesitava.”
E, ao conceder-lhe essa fraqueza, concedo a mim mesmo a possibilidade de existir neste planeta Terra — não como herói das escolhas definitivas, mas como artesão de dúvidas. O homem do conto não parte nem fica: ele respira. E isso, por ora, basta.
Fecho a gaveta. O planeta segue seu curso. Eu também, com a minha ridícula indecisão cuidadosamente guardada entre papéis inacabados, como quem preserva um mapa incompleto — não para encontrar o destino, mas para justificar a viagem.
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