quarta-feira, 4 de março de 2026

A Casa


Tudo começou quando eu tinha quatorze anos e acreditava que o mundo era um corredor estreito entre prateleiras de arroz e feijão. No mercado do bairro eu não tinha função definida; era um corpo disponível, mãos sempre prontas, esperando que alguém dissesse “vá”. E eu ia.

Naquele dia, mandaram-me acompanhar uma cliente até sua casa com as compras da semana. Caminhamos lado a lado sob um sol que parecia colado à pele. Ela falava de viagens, de trilhas, de lugares onde o vento corta a respiração. Eu ouvia sem compreender muito, mas havia qualquer coisa na sua voz — uma vibração subterrânea — que me deixava inquieto, como se meu próprio corpo estivesse aprendendo uma língua nova.

Só mais tarde eu perceberia que não notei nada além daquilo que meus olhos quiseram notar: o vestido escuro contornando o corpo, o cabelo longo, a altura altiva, a segurança no passo. Eu tinha quatorze anos e a inocência é também uma forma de cegueira.

A casa era maior do que eu imaginara — silenciosa, fresca, com paredes que guardavam um eco discreto. Entrei carregando as sacolas como quem atravessa um limite invisível. Enquanto organizava as compras, senti que o ar se adensava. Ela sentou-se no sofá e, com naturalidade, pediu que eu me sentasse ao lado.


Obedeci.


Havia no gesto dela uma tranquilidade que me desarmava. Quando me puxou para perto e me beijou, senti o mundo deslocar-se alguns centímetros do eixo. Era a segunda vez que eu tocava outra boca — e aquela boca tinha gosto de decisão. Meu corpo respondeu antes que eu pudesse pensar. Era como se uma corrente elétrica percorresse meus membros, uma vertigem doce e assustadora.

Eu ainda acreditava estar diante de um enigma simples, desses que se resolvem com o impulso. Mas a verdade não é simples; ela espera a mão descuidada para se revelar. Quando meus dedos encontraram aquilo que eu não esperava encontrar, o susto abriu um clarão dentro de mim. Não era medo, exatamente — era o colapso súbito de uma ideia antiga, a quebra de um espelho.


Poderia ter recuado.


Não recuei.


Havia algo na maneira como ela me segurava — firme e ao mesmo tempo acolhedora — que transformava o choque em outra coisa, uma curiosidade febril, uma entrega sem nome. Meu rosto mergulhou contra sua pele, e ali, entre respirações entrecortadas, compreendi que o desejo não pede autorização às certezas. Ele apenas avança.


Gozei como quem tropeça numa pedra invisível. Meu corpo traiu qualquer tentativa de compostura. Senti vergonha, mas ela me beijou com uma espécie de indulgência tranquila, como se dissesse que o mundo é vasto demais para caber nas nossas categorias.


Quando saí daquela casa, o bairro parecia o mesmo — as calçadas rachadas, os fios pendendo dos postes, o cheiro de pão recém-assado na padaria da esquina. Mas eu já não era o mesmo menino que atravessara o portão. Alguma coisa tinha sido deslocada para sempre: não apenas o desejo, mas a ideia de forma, de limite, de definição.


Durante muito tempo guardei aquela tarde como quem guarda um fruto proibido no bolso, sentindo o peso e o perfume misturados. Só depois entendi que não fora apenas uma iniciação do corpo, mas um abalo na arquitetura silenciosa do que eu pensava ser o mundo.


E há abalos que não destroem — apenas nos obrigam a crescer.

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