quarta-feira, 4 de março de 2026

Maré Baixa



             Fui para o litoral carregando comigo um silêncio antigo. Não era apenas o cansaço do trabalho, nem a expectativa de férias — era uma fome sem nome, dessas que a gente disfarça com paisagens abertas e horizonte largo. A casa da família estava vazia, como se aguardasse algo que eu mesmo não sabia definir. Durante quatro dias caminhei por praias quase desertas, sob um céu indeciso, entre o nublado e o cinza definitivo. A solidão primeiro me provocou, depois me acalmou, e por fim começou a me corroer. No quinto dia, escolhi uma faixa de areia onde ainda não havia pisado. O mar estava manso, respirando devagar. Foi então que a vi: deitada sozinha, recortada contra a claridade opaca da manhã, como se tivesse sido colocada ali por descuido do destino.

Passei por ela fingindo distração, mas o corpo não finge — ele denuncia. Havia nela uma beleza que me desconcertava: os cabelos longos, a pele morena clara, a postura relaxada de quem não espera nada. Ou talvez esperasse. Quando me pediu um cigarro, senti que algo se abria entre nós como uma fenda discreta. Agachei ao seu lado, e ali, naquela proximidade súbita, percebi o que antes fora apenas suspeita. Não era surpresa; era confirmação. Um detalhe que não negava o conjunto, apenas o ampliava.

Ela disse se chamar Tábata. Havia tristeza em sua voz, mas não era uma tristeza que afastasse — era daquelas que convidam a um gesto de cuidado. Falou de um término recente, de uma pausa necessária. Eu a escutava enquanto travava comigo mesmo um jogo antigo: fingir que não via o que via, tratá-la como mulher sem ressalvas, como se o mundo fosse simples e não exigisse classificações. Elogiei seu corpo, sua presença, sua força silenciosa. Aos poucos, o sorriso dela foi retornando, tímido, depois franco. Havia ali uma cumplicidade que crescia não pelo que se dizia, mas pelo que se sustentava no olhar.

Quando me pediu que passasse protetor em suas costas, o gesto foi quase ritualístico. Toquei sua pele com uma lentidão calculada, como quem aprende uma geografia nova com a ponta dos dedos. Ombros, nuca, a extensão das pernas. Havia calor sob aquela camada de óleo e sol contido. O mundo parecia resumir-se ao intervalo entre minha mão e sua pele.


Evitei ultrapassar certos limites — não por pudor, mas para prolongar o jogo. O desejo, quando contido, cresce como maré represada.

Depois ficamos frente a frente. A proximidade já não era casual. Nossos corpos se reconheceram antes que nossas bocas se tocassem. O beijo veio como consequência inevitável, profundo, demorado, como se cada um procurasse no outro uma resposta antiga.Entramos no mar como quem atravessa uma fronteira líquida. A água nos envolvia e escondia, e ali, entre abraços e respirações misturadas, senti que não era apenas o corpo que buscava o outro, mas algo mais subterrâneo — uma vontade de dissolver fronteiras, de suspender as categorias que nos organizam.


      Houve urgência, houve entrega. Mas o que me marcou não foi o gesto final nem o ápice inevitável. Foi o intervalo: o tempo em que permanecemos abraçados depois, ainda dentro d’água, como se o mar nos lavasse não do ato, mas das culpas invisíveis que carregamos.

Voltamos à superfície do dia com passos lentos. A praia continuava quase vazia, indiferente ao que acontecera. Sentamos lado a lado, silenciosos, observando o horizonte que antes me parecera tão distante. Descobri ali que o desejo não é apenas fome; é também espelho. E às vezes, quando ousamos encará-lo sem desviar os olhos, ele nos devolve não vergonha, mas um estranho e sereno reconhecimento.  Ficamos na água por muito tempo ainda, como se prolongássemos uma despedida que nenhum de nós ousava nomear. O mar seguia respirando. E eu, pela primeira vez em dias, também.

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