quarta-feira, 4 de março de 2026

O Cigarro da Sorte



O primeiro sinal deveria ter sido o cigarro. Aquele pedido casual, feito com uma voz mais grave do que eu esperava, mas ainda assim suave, melódica.  


— Me dá um trago?  


Estendi o maço, e quando nossos dedos se tocaram, algo estremeceu no meu estômago. Ela — porque naquele momento ainda era só "ela" pra mim — tinha unhas pintadas de vermelho, mas as juntas eram largas demais para serem de uma mulher.  


Sorriu ao perceber meu olhar preso nas suas mãos.  


— Tábata, prazer.  


O nome saiu como um desafio. E eu, que já tinha aprendido a lição no shopping dois anos antes, decidi brincar de burro.  


— Jaime.  


Fingi que não via o pomo de Adão sob a pele bronzeada. Fingi que o decote do biquíni não revelava peitos perfeitamente redondos, mas um pouco firmes demais. E quando ela esticou as pernas, eu me concentrei nas coxas torneadas, ignorando a sombra discreta de um volume entre elas.  


— Você é linda, sabia? — soltei, deixando a mão escorregar pela sua cintura.  


Ela riu, mas os olhos ficaram úmidos.  


— Hoje em dia, ninguém me diz isso.  


Não perguntei por quê. Em vez disso, peguei o bronzeador que ela estendia e comecei a trabalhar. A pele dela era quente sob meus dedos, e eu alonguei cada movimento, deslizando pelas costas até a borda do biquíni. Quando cheguei perto do cóccix, senti um tremor nela.  


— Quer que eu vá mais embaixo? — perguntei, inocente.  


Ela virou o rosto, me encarando com um sorriso que não era mais triste.  


— Pode ir até onde você quiser, gato.  


Foi aí que a máscara caiu. Ou melhor, subiu — junto com o pau dela, pressionado contra a minha perna quando nos beijamos.  


A praia estava vazia, mas mesmo assim fomos para as pedras, onde o mar batia com força suficiente para abafar os gemidos. Ela me chamou de "macho" enquanto eu a virava de quatro, mas foram os suspiros no meu ouvido, quase femininos, que me fizeram gozar.  


Depois, deitados na areia, ela acendeu outro cigarro.  


— Então... você sabia desde o começo?  


Sorri, lambendo os lábios salgados.  


— Só depois do bronzeador.  


Ela soltou uma risada gostosa, jogando a fumaça pro céu.  


— Mentiroso.  


E talvez eu fosse. Mas naquele momento, com o gosto dela ainda na minha boca, era a melhor mentira que eu já tinha contado.  

Nenhum comentário:

Postar um comentário