quarta-feira, 4 de março de 2026

O Simulacro sob a Mangueira

A história, como todas as histórias que valem a pena ser contadas, aconteceu em um subúrbio sem nome, num entardecer que guardava a cor do metal oxidado. Sob a mangueira — árvore que em sua imobilidade parecia conter a cifra de todos os labirintos — Júlio encontrou Iasmin. Ela não era apenas uma mulher ou o simulacro de uma; era a personificação de um rigoroso destino. Seus saltos altos, ao ferirem a terra fofa, desenhavam uma geometria de submissão que Júlio, aos dezessete anos, ainda não sabia ler.

"Vem cá, gatinho", disse ela, e a voz trazia o cansaço de quem já habitou todos os prostíbulos da memória.

Houve um gesto, quase litúrgico. Iasmin puxou-o pelo cinto, e Júlio ajoelhou-se. Naquela umidade de terra e raízes, ele não se ajoelhava diante de uma pessoa, mas diante de um enigma. Quando o vestido se ergueu, revelando a calcinha rosa e a forma latente e tensa de sua virilidade, o que se manifestou não foi o obsceno, mas o fantástico. O pau duro, com sua gota de pré-gozo, era como um talismã de carne, um Aleph de secreções onde todos os prazeres do mundo pareciam convergir.

O primeiro toque da língua foi uma viagem ao centro de um mapa desconhecido. O gosto salgado era o sabor do mar e da história; ao sugar a cabeça latejante, Júlio acreditou, por um átimo de segundo, que compreendia a linguagem dos pássaros e a ordem das estrelas. As mãos dele apertavam as nádegas da travesti — mármore vivo e flexível — enquanto ela, em um arqueamento que remetia às estátuas gregas, segurava seus cachos com a autoridade de uma divindade ctoniana.

O clímax não foi um grito, mas uma revelação. O jorro quente que inundou a garganta de Júlio era a prova de que a matéria é, antes de tudo, uma ilusão persistente. Iasmin deixou a marca de seu batom no tronco da mangueira, um hieroglifo que o tempo se encarregaria de apagar.

Ao acender o segundo cigarro, suas mãos trêmulas traíam a fadiga dos deuses após a criação. "Amanhã te ensino mais", sentenciou ela, antes de se perder na esquina de um labirinto de ruas idênticas. Júlio permaneceu de joelhos, o gosto dela na língua, sabendo que aquele instante se repetiria, eternamente, em algum volume esquecido de uma biblioteca infinita.

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