quarta-feira, 4 de março de 2026

A VEIA DE PRATA

O tempo em Altopicoshuypis não era um rio que corria, mas um charco que acumulava os pecados de dezoito de agosto, uma data que o céu vomitava em forma de uma chuva mansa, quase fúnebre, sobre os telhados do Norte. Naquele dia, o mundo cheirava a terra molhada e a legumes apodrecendo nas sacolas de gente que sorria sem saber que o amanhã já estava morto. A cidade — que os velhos de dentes gastos e olhos profundos como o abismo oceânico chamavam de "Veia de Prata", como se o minério pudesse redimir a lama — dobrava-se sobre si mesma como a enorme serpente que a dividia.

Lá, onde o rio (aquela espinha dorsal de água barrenta) separava os homens das bestas, Melquisedeque caminhava com o peso de uma descrença que era, por si só, uma forma de fanatismo.

I. O Ceticismo de Ferro

Melquisedeque carregava o coração no peito como um pássaro de ferro forjado em uma fornalha de silêncio. Ele negava o sobrenatural com a mesma fúria com que um homem afogado nega a água. No bar do Turco Malamed — um lugar onde o fumo dos cachimbos de Fulorzinho desenhava no ar as mentiras de Mapinguaris vermelhos e preguiças de quatro metros — Melquisedeque era uma estátua de sal.

— Histórias da carochinha — ele dizia, o hálito de hipopótamo cortando o vapor do café. — O que o homem não entende, ele batiza de monstro.


Em casa, Florbela carregava um ventre que era um túmulo ao contrário. O bebê, tendo vislumbrado a serpente no quintal, recuara para a escuridão do útero, um exilado voluntário da luz.

— Ele vai ser macho — rosnava Melquisedeque, embora o próprio silêncio da casa parecesse rir dele.


II. O Lobisomem de Plumas

Então veio o caso dos Batista. O Coronel, cuja autoridade era uma sombra que cobria a província, dera a filha, Ana, aquela menina tão branca que parecia feita de caspa de anjo, ao vaqueiro Jorge Pingão. Mas o sangue de Jorge estava infectado por uma gramática de feitiços lidos em livros proibidos, uma dívida de jogo paga com a alma para uma bruxa que morava onde as árvores não têm nome.


A transformação não era apenas carne mudando; era a desintegração de uma linhagem. Dia sim, dia não, Jorge deixava de ser homem para ser uma abominação de plumagem seca, olhos de saliva rubra, uma sede de sangue que era, no fundo, uma sede de fim.


E o circo veio. O dono do circo, um mercador de misérias, trouxe a fera enjaulada. Melquisedeque levou a esposa e o filho-não-nascido para ver o espetáculo. Ele viu o povo — o mesmo povo que rezava aos domingos — atirar pedras em um velho peludo com mãos de foca e dentes de leite.


Eles sempre escolherão Barrabás, pensou Melquisedeque. E o lobo, em um relance de telepatia ancestral, sorriu para ele. Foi ali, naquele sorriso de fera, que o ferro no peito de Melquisedeque começou a enferrujar.


III. A Metamorfose da Carne

A chuva de dezoito de agosto continuava, tediosa como o pecado repetido. Os dólares dos americanos forravam as sarjetas, e o bordel da gorda senhora reluzia com o ouro arrancado do desejo alheio. Ela queria a santidade para a filha, Sâmara; queria lavar a própria lama com a pureza da prole.


Mas o sangue ferve sob a pele. Sâmara buscou o Sul, o vinho, a carne e o dinheiro. E quando voltou, a mãe não usou palavras, usou o ferro quente. O ferro que marca o gado, que define a posse.


— Cavala! — gritou a alcoviteira, e o grito não foi uma ofensa, foi um decreto.


A mutação de Sâmara foi um colapso da forma. No espelho, o rosto delicado de nuvem esticou-se em uma mandíbula equina, uma máscara de bicho sobre um corpo de virgem. Ela fugiu para a noite, não mais humana, não totalmente animal, apenas um som que cortava o nevoeiro de Altopicoshuypis:


— CAVALA! CAVALA! CAVALA!


Naquela noite, Melquisedeque sentou-se à mesa. A sopa de Florbela fumegava. Dois alhos saltaram de suas narinas como se o seu próprio corpo estivesse expelindo a razão. Ele olhou para a escuridão além da janela, para a Veia de Prata que brilhava sob a lua fria.


— Que noite estranha — ele murmurou, a voz trêmula pela primeira vez. — Nada de extraordinário acontece nesta cidade.


Mas, ao fundo, o bebê no útero de Florbela chutou a parede de carne, reconhecendo, enfim, o mundo que o esperava.

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