quarta-feira, 4 de março de 2026

O Dilúvio e o Segredo

             A chuva caía como se o céu quisesse levar a cidade inteira embora. Pingos grossos batiam nos vidros do meu apartamento minúsculo, enquanto eu tentava me aquecer com um copo de whisky barato. Foi quando ela apareceu — ou melhor, quando a porta do prédio emperrou e eu fui ajudar.  

Enfrentei a tempestade por dois segundos, o suficiente para ficar encharcado. E então, sob a luz amarelada do hall, vi ela: cabelos negros escorrendo água pelas costas, batom vermelho quase borrado, um sorriso que prometia mais do que abrigo.  

— "Me deixa secar um pouco aí, gato?" — a voz dela era doce e rouca, como mel misturado com fumaça.  

Eu hesitei, mas o corpo já tinha decidido.   Dentro do meu apartamento, o calor dos nossos corpos evaporou a umidade do mundo lá fora. Ela ajoelhou-se no chão de madeira, mãos deslizando pela minha calça molhada antes mesmo que eu pudesse pensar em protestar.  

— "Chove lá fora… mas aqui dentro vai ser só calor" — sussurrou, abrindo o zíper com os dentes.  

E então, a chuva deixou de existir. Só havia a língua dela, quente e hábil, envolvendo meu pau como se fosse a última coisa viva no planeta. Cada gota que batia na janela parecia marcar o ritmo dela — lenta, depois urgente, depois perfeita.  

Quando eu gemí, ela olhou pra cima com aqueles olhos pintados e riu:  

— "Agora… me paga um taxi depois, né, amor?"  

E eu só consegui balbuciar sim entre um tremor e outro, enquanto a tempestade lá fora finalmente começava a fazer sentido.  

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