quarta-feira, 4 de março de 2026

O Gosto dos Frutos Tardios


O sol se imobilizava no horizonte, espesso e alaranjado, tingindo a tarde com a viscosidade do melado de cana. Foi sob essa luz crepuscular que vi Brenda surgir entre as fileiras de café. Ela trazia no corpo a ambiguidade das infâncias que terminam cedo: um vulto franzino, mas carregado de um saber que nenhum de nossos compêndios escolares ousaria registrar. Eu pronunciava o nome dela em silêncio, uma litania rústica que me protegia do medo.


— Quer? — a voz dela era um convite que não admitia recusas.


Ajoelhei-me na terra úmida, onde as formigas desenhavam trajetórias errantes entre farelos de biscoito e folhas secas. O que se seguiu foi uma imersão em águas desconhecidas. Havia um calor salino, uma pulsação que parecia vir do centro do mundo. Eu era o estrangeiro diante de um rio caudaloso, mergulhando o rosto em sua correnteza para decifrar a origem de seu curso.


Quando o corpo de Brenda arqueou-se contra o céu baço, e o seu gemido atravessou o cafezal como um vento que corta as folhagens, compreendi que a inocência era uma pele que acabávamos de trocar. Eu buscava nela o rastro daquela oferenda, lambendo os lábios com a sofreguidão de quem descobre uma sede antiga.


— Tem mais? — perguntei, num sussurro que a tarde quase engoliu.


Ela sorriu, um riso breve e cúmplice, conduzindo-me para o coração da plantação, onde as sombras nos resguardavam do olhar dos vivos. Ali, entre o farfalhar das folhas, aprendi que certos prazeres possuem a mesma natureza dos frutos maduros: uma mistura de doçura e amargor que se prolonga na memória, infinitamente, como o aroma do café que impregna a roupa e a alma.

Nenhum comentário:

Postar um comentário