Havia em Altopicoshuypis um cheiro de estagnação que não vinha apenas dos pântanos ou do mofo das casas de madeira apodrecida, mas da própria linhagem de Joana — aquela mulher cuja vulgaridade era uma força da natureza, uma entidade de carnes flácidas e voz de cascalho que parecia ter existido antes mesmo da fundação da igreja. Ela movia-se pela cidade com a autoridade de quem comercializa o que é sagrado e o que é profano com o mesmo peso na balança, e sua neta, Brunilda, era a moeda de troca: uma criatura desalmada, de olhos vazios como poços secos, que Joana oferecia aos homens nos becos úmidos como quem oferece uma fruta que já nasceu com o bicho por dentro.
O plano de Joana, porém, possuía a geometria cruel de uma tragédia grega encenada no barro. Ela queria o casamento. Ela queria o vínculo de sangue e papel com Gali, o pequeno ruivo cuja pele parecia estar sempre em chamas sob o sol implacável, e cuja ascendência, embora envolta na névoa do mistério, ainda carregava o prestígio de terras que a luxúria de Joana cobiçava.
Mas Gali não era um homem de Altopicoshuypis, embora seus pés estivessem presos ali. Ele era um estrangeiro de si mesmo. Enquanto Joana empurrava Brunilda para dentro do quarto — uma câmara de sombras onde o cheiro de lavanda barata tentava, sem sucesso, mascarar o odor de mofo das paredes —, e enquanto a neta, com a passividade de um animal de abate, cumpria o ritual de carne que a avó lhe impusera, o espírito de Gali estava a léguas de distância.
Ele não via Brunilda. Ele não sentia o toque desalmado daquela pele que já havia passado por tantas mãos. Sob o peso do corpo dela, Gali habitava o cafezal noturno. Ele sentia, com uma nitidez que beirava a agonia, a presença de N — aquele negro monumental, cuja pele de obsidiana bebia o luar e cujos músculos eram a única arquitetura que Gali reconhecia como lar. Era para N que o seu desejo, esse segredo que ele guardava como uma brasa escondida sob a cinza da decência pública, rugia durante as madrugadas.
O "crime maravilhoso" de Joana era a construção de uma mentira monumental: ela forçava a cópula para engendrar a respeitabilidade, ignorando que Gali era um homem habitado por savanas distantes. Pois, enquanto Brunilda gemia o seu tédio profissional sob ele, Gali fechava os olhos e não via o teto da casa, mas o horizonte vasto da África. Ele se via não como um marido, não como um herdeiro de Altopicoshuypis, mas como um caçador de leões — um homem que buscava no perigo da fera a única forma de coragem que pudesse se igualar ao medo de amar N sob a luz do sol.
Ali, naquele quarto que era o resumo de todas as misérias da cidade, o destino se consumava: Joana, sentada na varanda, fumando o seu cigarro de palha com a satisfação de quem acaba de vender a alma de Deus; Brunilda, fingindo uma entrega que o seu coração desalmado não podia processar; e Gali, o ruivo, perdido em um sonho de pólvora, juba de leões e o suor negro de N, enquanto a poeira de Altopicoshuypis descia sobre todos eles, cobrindo o crime com o silêncio de mil gerações de mentiras.
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