Personagens:
João Molembento: Um rapaz que parece um macarrão cozido de tanto desânimo, mas portador de uma "arma secreta".
Coronel Finitro: O dono de tudo, da terra à alma do povo, homem de fígado azedo e ciúme de fera.
Dona Perpétua: A esposa do Coronel, mulher de olhos de fogo e tédio de fidalga.
João era o que se pode chamar de um "zero à esquerda no balanço do mundo". Se a inteligência fosse água, ele seria o Deserto do Saara; se a fortuna fosse fôlego, ele seria um asmático em dia de poeira. Andava com os braços pendurados, as pernas em X e uma cara de quem pediu o jantar e recebeu um "não".
Mas, como diz o ditado que eu acabei de inventar: "Deus dá o frio conforme o cobertor, mas às vezes exagera no tamanho da colcha."
João possuía uma dotação física que desafiava as leis da anatomia e da decência. Era o "Jumento Sedutor" das bandas do Cariri. Não que ele quisesse, mas é que o destino, quando fecha uma porta, abre uma janela de proporções épicas.
O Encontro na Cerca
Dona Perpétua, farta da frieza do Coronel Finitro — homem que se preocupava mais com o preço da saca de algodão do que com o calor dos lençóis —, avistou João escorado num pé de juazeiro. O rapaz estava lá, molembento, deixando o peso da natureza agir.
— Valha-me Nossa Senhora da Abadia! — exclamou ela, quase caindo do cavalo. — Que assombração é essa que esse rapaz carrega na cintura? É uma jiboia ou é mágica?
João, com sua voz de sono, respondeu:
— É só o peso da vida, Dona Perpétua. O mundo é pesado e eu sou fraco das pernas.
Dona Perpétua, que de boba só tinha o caminhar, sentiu um xamego subir pela espinha. Foi um tal de convite para "tomar uma água no sobrado" que nem o mais santo dos homens recusaria. E João, sendo burro mas não sendo doido, foi-se embora.
A Artimanha da Fuga
O problema é que o Coronel Finitro, sujeito trapaceiro e de ouvido apurado, chegou mais cedo da feira. Ouviu os suspiros que pareciam de Maria Fumaça subindo a serra e desembainhou a parabelum.
— João, se tu não morrer agora, o diabo é cego! — gritou o Coronel, esmurrando a porta de carvalho.
Dona Perpétua, num surto de fúria e medo (pois o amor e o ódio naquelas terras são farinha do mesmo saco), tentou empurrar João da janela, querendo se livrar da prova do crime e do amante de uma vez só.
Mas João, na sua moleza astuta, lembrou-se das lições de sobrevivência do sertão. Ele não correu; ele se derreteu.
"Coronel! — gritou João de dentro do quarto — Não atire que eu sou um enviado do Reino de Dom Sebastião! Vim trazer a relíquia da fertilidade para garantir que suas terras nunca mais sequem!"
O Coronel, que era ganancioso a ponto de vender a mãe por um palmo de terra, travou o gatilho.
— Relíquia? Que história é essa, seu molembento?
— É uma profecia, meu nobre Coronel! — continuou João, enquanto vestia as calças na velocidade de um bicho-preguiça com pressa. — A profecia diz que o homem que possui o 'Cajado do Reino' deve benzer as quatro quinas da sua fazenda. Mas se o senhor me matar agora, a seca vai durar cem anos e o senhor vai ficar mais seco que couro ao sol!
Enquanto o Coronel Finitro pensava naquelas palavras e na possibilidade de ficar rico com o misticismo do "Jumento", João pulou a janela, caiu de mau jeito, mas levantou-se com a agilidade que só o medo do chumbo proporciona.
Dizem que João Molembento sumiu na poeira da estrada, mas que até hoje, em noites de lua cheia, Dona Perpétua olha para o horizonte e suspira, e o Coronel Finitro ainda espera o tal enviado do Reino voltar com a bênção da fertilidade.
E se alguém duvida dessa história, saiba que eu não sou de mentir.
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