O sol ainda não era sol, mas uma ferida pálida e purulenta rasgando o horizonte de cafeeiros, quando Gali, com o cabelo ruivo agora desbotado pela luz fria da manhã — aquele matiz de ferrugem velha sobre o qual a noite havia depositado sua umidade implacável — aproximou-se de N. O negro permanecia imóvel, uma estátua de basalto recortada contra a névoa que subia da terra como o hálito de um gigante adormecido, conservando ainda nas narinas o cheiro atávico da terra revolvida e do sêmen que a lua, agora extinta, havia testemunhado.
— N — disse Gali, e sua voz não era um chamado, mas uma súplica que atravessava gerações de silêncios camponeses, uma vibração tênue que buscava reaver a urgência daquela carne que, horas antes, havia sido sua única bússola no caos do plantio. — Vamos voltar. Agora. Antes que o dia se torne trabalho, antes que o patrão conte os grãos. Quero o café de novo. Quero você lá, entre as raízes.
N não se moveu de imediato; ele era o centro de gravidade daquele mundo de sombras e arbustos. Quando finalmente girou o corpo, não houve pressa, apenas a lenta e inexorável economia de movimento de quem conhece o peso do próprio destino. Ele olhou para Gali — não para o rapaz que ali estava, mas para a linhagem de desejos inconfessáveis que ele representava — e o seu rosto, entalhado na penumbra do alvorecer, não ofereceu palavras.
O que N ofereceu foi o sorriso.
Não era um sorriso de concordância, nem de deboche, mas um riso ancestral e malicioso, uma fenda de marfim na escuridão do rosto que parecia saber que o cafezal não era um lugar, mas um estado de danação ao qual ambos pertenciam. Era o sorriso de quem guarda a chave de um segredo que o sol, com sua claridade impiedosa e burocrática, jamais conseguiria iluminar. N apenas sustentou o olhar, deixando que o silêncio do campo respondesse por ele, enquanto a primeira luz do dia começava a revelar, com uma crueldade geométrica, que a noite — e tudo o que ela permitira — havia sido devorada pela manhã.
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