terça-feira, 30 de dezembro de 2025

No quedará en la noche una estrella


No quedará en la noche una estrella.
No quedará la noche.

Lo supe al verla cruzar el umbral del tiempo,
rubia como una memoria del norte,
vestida de encaje tan leve
que no ocultaba el mundo
sino que lo revelaba.

Su transparencia no era del cuerpo,
sino del instante.
El encaje nórdico —blanco, casi infinito—
parecía una geometría del frío,
una antigua runa
aprendida por la luz.

No era desnudez:
era destino.
Como si el tejido supiera
que todo velo existe
para enseñar lo que no puede decirse.

En sus hombros descansaba la tarde,
en su paso, la certeza
de que la belleza no pide permiso
y no se repite.
La miré como quien mira
una biblioteca arder en silencio.

No quedará en la noche una estrella.
Porque ella era la constelación.

No quedará la noche.
Porque al pasar,
abolió la sombra
y dejó al tiempo sin refugio.

Así la recuerdo:
no como mujer solamente,
sino como una forma del infinito
que eligió, por un momento,
ser visible.

Al-Ándalus

 

Al-Ándalus

Al-Ándalus fue nombre de la tierra
cuando el sur habló en lengua de oración,
y el sol, sobre la cal y el alcorzón,
bendijo el trigo, el verso y la cantera.

Desde el año siete-once alzó su esfera
el mundo musulmán en la región,
tejiendo ley, ciencia y contemplación
donde la espada al fin cedió a la cera.

Fue ancho el reino: Iberia casi entera,
y aun Septimania oyó su corazón
latir bajo la sombra omeya austera.

Mas todo reino aprende su lección:
la historia es agua — llega y se retira—,
y queda el canto donde el tiempo expira.

Sefarad Antigua

 


Llegaron con Roma, paso silencioso,
trayendo la Ley, la lámpara encendida;
eran semilla frágil pero viva
en suelo ajeno, duro y pedregoso.

Bajo reyes paganos, fue penoso,
y luego el reino visigodo herida:
la fe negada, la palabra prohibida,
el miedo escrito en decreto odioso.

Mas vino Al-Ándalus con otro sol,
tras la conquista del Omeya lejano,
y el saber abrió puertas y razón.

Allí el judío fue poeta y humano,
comercio, ciencia, verso y tradición:
flor de Sefarad, jardín de la mano.

La Belleza i el Mar -

 

La Belleza i el Mar

La belleza se kedo en Sefarad,
en las kalles blancas ke ya no nos kieren,
en las puertas serradas kon kruzes nuevas
onde una vez rezava la luz.

El mar nos mira sin preguntas,
azul i profundo komo el tiempo de Dio,
abre sus manos saladas
para resivir lo ke fue echado.

Salimos kon llaves en los bolsiyos,
kon nombres rotos en la boka,
kon el Shemá ardiendo bajito
para no ser eskuchado por el miedo.

El mar no nos juzga.
El mar save de expulsiones.
Save de pueblos ke parten
sin saber si ay tornada.

Kaduna ola diz: andate,
otra susurra: akuerda.
Entre ir i tornar
se rompe el korazón de Sefarad.

La belleza no era solo la tierra,
era el pan, la kantika, la letra,
era el nombre de Dio escrito
en la respiración del dia.

Agora navegamos en galut,
entre cielo i agua,
i el alma, kansada del mundo,
desea tornar no a España,
sino al cielo primero.

No al cielo alto i frio,
sino al cielo ke nos konosía,
onde no ay expulsión
ni decreto ni frontera.

El mar nos empuja adelante,
el cielo nos llama arriba,
i entre los dos keda el judío errante,
hermoso i roto,
kantando para no morir.

Si no podemos tornar a Sefarad,
ke tornemos al cielo.
Si no ay puerto en la tierra,
ke ay descanso en la luz.

La belleza vive aun,
no en la costa perdida,
sino en el deseo
de tornar a Dio.


A Beleza e o Mar

(tradução poética comentada)

1.

A beleza ficou em Sefarad,
nas ruas brancas que já não nos querem,
nas portas fechadas com cruzes novas
onde um dia rezava a luz.

Comentário:
“Sefarad” é a Espanha judaica perdida. A beleza não é apenas estética, mas civilizacional: convivência, cultura, memória. As “cruzes novas” aludem à cristianização forçada e à exclusão. A “luz” é tanto a vida cotidiana quanto a presença divina (Shechiná).


2.

O mar nos olha sem perguntas,
azul e profundo como o tempo de Deus,
abre suas mãos salgadas
para receber o que foi expulso.

Comentário:
O mar surge como testemunha neutra da História. Diferente dos homens, não julga. É refúgio e ameaça. “Tempo de Deus” sugere eternidade — o exílio humano frente ao infinito.


3.

Partimos com chaves nos bolsos,
com nomes quebrados na boca,
com o Shemá ardendo em segredo
para não ser ouvido pelo medo.

Comentário:
As chaves simbolizam a esperança concreta de retorno — muitas famílias sefarditas as preservaram por séculos. “Nomes quebrados” remetem a conversões forçadas e identidades ocultas. O Shemá Israel representa a fé íntima, sussurrada para sobreviver.


4.

O mar não nos julga.
O mar conhece expulsões.
Conhece povos que partem
sem saber se há retorno.

Comentário:
Aqui o mar é quase um personagem sábio, arquivista das diásporas humanas. O verso universaliza a experiência judaica, ligando-a a outras migrações forçadas da história.


5.

Cada onda diz: vai,
outra sussurra: lembra.
Entre ir e voltar
se parte o coração de Sefarad.

Comentário:
A oscilação das ondas encena o dilema do exílio: sobreviver exige partir; existir exige lembrar. O “coração de Sefarad” é a identidade dividida entre futuro e passado.


6.

A beleza não era só a terra,
era o pão, a canção, a letra,
era o nome de Deus escrito
na respiração do dia.

Comentário:
A pátria verdadeira é cultural e espiritual. “A letra” remete à Torá, ao estudo, à tradição escrita. Deus não está no templo perdido, mas no cotidiano vivido.


7.

Agora navegamos em exílio,
entre céu e água,
e a alma, cansada do mundo,
deseja voltar — não à Espanha,
mas ao céu primeiro.

Comentário:
O exílio deixa de ser apenas geográfico e torna-se metafísico. O “céu primeiro” não é um paraíso abstrato, mas o estado de pertencimento anterior à violência histórica.


8.

Não ao céu alto e frio,
mas ao céu que nos conhecia,
onde não há expulsão
nem decreto nem fronteira.

Comentário:
Crítica indireta às religiões do poder e aos Estados excludentes. O céu desejado é relacional, íntimo, sem leis de exclusão — uma utopia ética.


9.

O mar nos empurra adiante,
o céu nos chama para cima,
e entre os dois fica o judeu errante,
belo e partido,
cantando para não morrer.

Comentário:
Imagem central do poema: o judeu entre forças contrárias — História e transcendência. O canto é resistência cultural; cantar é existir.


10.

Se não podemos voltar a Sefarad,
que voltemos ao céu.
Se não há porto na terra,
que haja descanso na luz.

Comentário:
Renúncia dolorosa ao retorno físico, substituído por uma esperança espiritual. A “luz” é consolo, memória e promessa.


11.

A beleza ainda vive,
não na costa perdida,
mas no desejo
de voltar a Deus.

Comentário:
Conclusão teológica e poética: a beleza sobrevive como anseio. O retorno final não é político nem territorial, mas espiritual.

Cantiga do Ir a Marrocos

 

Cantiga do Ir a Marrocos

Pelas ribeiras do tempo antigo
levo meu fardo e minha porção,
em galut* anda minha alma viva,
entre promessa e dispersão.

Digo baixinho, à luz da candeia,
Baruch HaShem*, ainda respiro,
pois quem nasceu com sede de mundo
não cabe em muro nem retiro.

vou ao marrocos, e adeus, vou ao marrocos,
digo à noite sem temor,
caneti não me segure meu peito nem minhas asas,*
que a ruach* chama mais forte que o amor.

Trago na boca sal e doçura,
no peito a ferida e a emuná*,
pois quem confia caminha longe
sem mapa, sem chão, com sinal de Adonai*.

Entre Lisboa e mares escuros,
vendo esperança por um pão,
sou mercador de lembranças velhas
e de futuro em gestação.

vou ao marrocos, e adeus, vou ao marrocos,
repete o vento no cais,
caneti não me segure meu peito nem minhas asas,
que meu destino não cabe em mais.

Se choro, choro como quem canta,
se parto, parto em oração,
Shema Yisrael* no fundo da alma,
coração aberto, mão no coração.

Se um dia volto — quem sabe volto —
com barba branca e outro olhar,
direi que o mundo é grande e terno
para quem ousou atravessar.

vou ao marrocos, e adeus, vou ao marrocos,
fim do canto, fim do cais,
caneti não me segure meu peito nem minhas asas,
que fui criado para ir mais.


* galut (exílio)
* Baruch HaShem (bendito seja o Nome)
* caneti (pena/escrita; aqui como símbolo do que prende e registra)
* ruach (sopro, espírito)
* emuná (fé, confiança)
* Adonai (Senhor)
* Shema Yisrael (oração central judaica)

Cantiga de Açucar e Limão - Azukar i Limón -

 

Cantiga de Açucar e Limão

Pelas ruas velhas de Sefarad
vai meu desejo sem guarida,
trago no peito amor dobrado
entre a doçura e a ferida.

Meu bem partiu sem dizer palavra,
levou consigo meu quinhão,
ficou-me a alma como mesa pobre:
um pão, um sal, uma oração.

açucar e limão, dói meu coração
assim digo sem saber mentir,
doce na boca, amargo no peito,
tal é o fado de quem soube amar e partir.

Em noite fria, à luz da candeia,
conto lembranças como quem conta pão,
cada memória é meia promessa
que sangra em lenta procissão.

Entre Lisboa e mares distantes,
entre a lei e o desterro vão,
meu amor fez-se mercador errante
sem porto, sem perdão.

açucar e limão, dói meu coração
canta a voz que Deus me deu,
pois quem ama leva na língua
o que o destino escreveu.

Se vier o dia da alegria,
que venha manso, sem traição,
que aprenda desta cantiga velha
o peso exato da paixão.

açucar e limão, dói meu coração
fim do canto, fim do som,
mas enquanto houver memória viva
cantarei: doce e fel são dom.



Azukar i Limón

En la kaye vieja de la memoria,
anda mi alma deskalza i sin razón,
entre el dulzor de lo ke fue promesa
i la agrura amarga de la separación.

La luna mira, blanca i kayeja,
los pasos lentos de mi korazón,
yo te amé komo se ama en eksilio:
kon miedo, fe i sin perdón.

Açúcar e limão, dói meu coração,
kanta la voz ke no save mentir.
Açúcar e limão, dói meu coração,
dulce i agrio, vivir es ansí.

Pan i vino sobre la mesa rota,
una kantika para no llorar,
tu nombre arde komo un relámpago
en la boka ke no lo puede olvidar.

Entre Sevilla i Salonika,
entre Sefarad i el mar sin fin,
mi amor se izo diaspora,
se fue kantando lejos de mí.

Açúcar e limão, dói meu coração,
repite el viento al pasar.
Açúcar e limão, dói meu coração,
ke no save si deve reír o llorar.

Si mañana torna la alegria,
ke venga despacio, sin dolor.
Ke aprenda de esta kantika vieja
ke el amor es azukar i limon.

Açúcar e limão, dói meu coração,
fin del kantar, fin del son.
Açúcar e limão, dói meu coração,
i aun ansí… kanto por amor.

O Judeu em Gil Vicente: Comércio, Diáspora e Brasil - parte 2


Gil Vicente, cronista dramático de um Portugal em trânsito entre a Idade Média e a modernidade mercantil, oferece-nos, em seus autos, não apenas tipos morais, mas retratos sociais densos, impregnados do cotidiano econômico do reino. O judeu que surge em cena não é uma abstração teológica; é o judeu que compra, vende, empresta, negocia, fala a língua do dinheiro num mundo que oficialmente o condena, mas praticamente dele depende. Há nisso algo profundamente ibérico: a repulsa pública e a intimidade privada, a condenação moral e a utilidade cotidiana.

Em autos como o Auto da Barca do Inferno, Gil Vicente não poupa o judeu da caricatura social. Quando surge o Judeu carregando seu cofre, o riso nasce do reconhecimento imediato do tipo econômico: “Cofre que nunca se farta, / alma que nunca se enche”. A imagem é direta, quase brutal, mas revela mais sobre a mentalidade cristã do que sobre o judeu em si. O cofre não é apenas objeto cênico; é símbolo de uma economia nascente que a cristandade ainda tenta negar, mas já não consegue prescindir.

Gilberto Freyre, atento às continuidades culturais da colonização portuguesa, provavelmente veria nesse judeu vicentino um ancestral simbólico do comerciante luso-brasileiro, figura ambígua que atravessa oceanos levando consigo hábitos, redes e capitais. O judeu português, forçado à conversão ou à fuga, não desaparece: ele se desloca. Vai para Antuérpia, para Amsterdã, para Recife. Leva consigo a prática mercantil, o senso de família extensa, a confiança baseada no parentesco e na palavra dada.

No Auto da Barca do Inferno, o Diabo pergunta ao Judeu: “Que trazeis vós aí tão guardado?” E ele responde com ironia defensiva: “Trago a minha consciência.” A resposta, cômica e amarga, revela a associação entre consciência e dinheiro, típica de um mundo em que a salvação espiritual já começa a ser negociada em termos materiais. Gil Vicente, talvez sem o saber, dramatiza o nascimento de uma ética econômica moderna, ainda vista com desconfiança pela moral tradicional.

Essa ética encontrará terreno fértil na Holanda do século XVII, onde judeus portugueses — muitos deles cristãos-novos — reorganizam suas redes comerciais e financeiras. Freyre veria nisso um prolongamento natural da vocação lusa para a adaptação tropical e mercantil. O judeu português na Holanda não rompe com Portugal; ele o prolonga por outros meios. E quando a Holanda chega ao Brasil, especialmente ao Nordeste açucareiro, essas redes se reencontram, agora em solo colonial.

No Auto da Feira, Gil Vicente põe na boca de personagens críticas mordazes à lógica do lucro e da troca. O judeu, ali, é figura conhecida do espaço urbano: “Na feira me achareis, / que é onde o mundo se vende.” A feira vicentina antecipa o mercado colonial, espaço de mistura, negociação e conflito. No Brasil holandês, judeus portugueses participam ativamente do comércio do açúcar, do crédito e da exportação, integrando-se à economia local com uma fluidez que contrastava com sua exclusão formal.

Gilberto Freyre insistiria que o Brasil não se fez apenas de senhores de engenho e escravos, mas também de intermediários: comerciantes, financiadores, homens de letras e de contas. O judeu português, herdeiro do tipo vicentino, ocupa esse lugar de mediação. Não é senhor absoluto nem marginal completo. Vive entre mundos, entre leis, entre línguas — português, espanhol, holandês, hebraico — e essa plasticidade cultural é um dos motores silenciosos da formação brasileira.

Quando Gil Vicente faz o Judeu ser barrado na barca do Paraíso, não se trata apenas de condenação religiosa. É a dramatização de uma exclusão social que convive, paradoxalmente, com a dependência econômica. “Aqui não entrais vós, / que a lei vos tem vedado”, diz o Anjo. Mas o mundo terreno, ao contrário do celestial, abre-lhe portas todos os dias. Essa duplicidade atravessa séculos e reaparece no Brasil, onde judeus são tolerados enquanto úteis e perseguidos quando visíveis demais.

No Recife holandês, a sinagoga Kahal Zur Israel não é apenas templo; é centro de sociabilidade, crédito e informação. Freyre perceberia aí a continuidade do espírito da feira vicentina: espaço de troca não apenas de mercadorias, mas de ideias e costumes. O judeu, como em Gil Vicente, é figura urbana por excelência, ligado à cidade, ao porto, ao movimento — em contraste com o senhor de engenho, ligado à terra e à tradição.

Gil Vicente talvez não imaginasse que aquele judeu caricaturado no palco atravessaria o Atlântico como agente histórico. Mas sua obra registra, com fidelidade involuntária, a presença insistente desse tipo social. O riso vicentino, ao mesmo tempo que estigmatiza, fixa a figura. E aquilo que a literatura fixa, a história prolonga. O judeu do auto torna-se o judeu do açúcar, do comércio atlântico, da modernidade colonial.

Freyre leria essas continuidades não como simples reprodução de preconceitos, mas como sinais da complexidade luso-tropical. O Brasil herdou de Portugal essa convivência tensa entre fé e negócio, entre pureza proclamada e mestiçagem real. O judeu português, mesmo ausente ou oculto, participa dessa mestiçagem cultural profunda, influenciando hábitos econômicos, familiares e urbanos.

Assim, as citações de Gil Vicente, lidas à luz da história atlântica, revelam mais do que estereótipos: revelam estruturas. O judeu vicentino é o prenúncio do judeu da diáspora luso-brasileira, agente de circulação num mundo em expansão. Entre o riso do teatro e a seriedade do comércio, entre Lisboa, Amsterdã e Recife, constrói-se uma história subterrânea, mas decisiva, da formação do Brasil.