Tinha cinco reais no meu bolso,
ou talvez nem isso.
Tinha cinco reais estropiados,
amassados de angústia e troco de padaria.
No meio da rua tinha uma travesti,
tinha uma travesti no meio da rua.
Nunca me esquecerei desse encontro
nas Pias da noite, no asfalto morno.
Ela era linda de uma beleza urgente,
feita de ferro e batom barato,
com os olhos marejados de cidade.
O desejo veio sem favor,
como a chuva que desaba sobre Campinas.
Ela deixou.
Abriu-se o mistério da carne na calçada,
na penumbra do beco,
onde o mundo silencia e desaba.
Depois do gozo,
depois do curto relâmpago de bicho,
pensei na etiqueta burguesa,
no preço de tudo o que se compra e se gasta.
Ofereci cinco reais.
Cinquenta centavos de culpa.
Ela olhou a nota mofada
com a indiferença dos anjos caídos.
Não se importou.
Não houve escândalo, nem moral de província.
E disse, com a voz rouca de quem já viu o mundo acabar:
— Continua.
De graça.
E eu continuei,
embasbacado diante da generosidade
daquela santa do asfalto,
enquanto o relógio da matriz
batia horas vazias
e a vida, enfim, continuava.
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