A chuva
batia rítmica e fria contra os abrigos de zinco enferrujado do ponto de ônibus
na Avenida dos Engenheiros. Lucas encolheu-se ainda mais dentro do capuz do
moletom cinza, tentando ignorar a dor latejante na costela. Nilo e seus
capangas tinham sido especialmente criativos hoje na saída do colégio técnico.
Para eles, o fato de Lucas passar horas consertando placas-mãe velhas e lendo
mangás de ficção científica era uma ofensa pessoal que só podia ser lavada com
empurrões nos armários e hematomas roxos.
Lucas respirou fundo, puxando o ar úmido e fedendo a
escapamento de ônibus, desejando sumir da face da Terra.
— Odeio este lugar — murmurou ele, limpando um óculos
embaçado com a manga do casaco.
— Eu também detestaria, se deixasse aqueles macacos
ditarem o ritmo da minha respiração.
Lucas sobressaltou-se.
Sentada no banco de concreto, bem ao lado dele, estava uma garota que ele
jurava não estar ali um segundo antes. Ela vestia um casaco de lã preto,
volumoso, com o capuz puxado para baixo fazendo sombra sobre o rosto, mas os
lábios — carnudos, de um tom roxo-escuro quase magnético — formavam um sorriso
intrigante.
— Ah... desculpa, eu pensei alto? — Lucas gaguejou,
sentindo as bochechas esquentarem.
— Pensou. E alto demais — disse ela, virando-se para
encará-lo com olhos redondos, escuros como poços sem fundo, que pareciam
brilhar com um reflexo oleoso sob a lâmpada queimada do poste. — Sou Maya. E
você é o garoto que prefere microchips a valentões estúpidos.
— Lucas. — Ele engoliu em seco, fascinado. Nenhuma
garota na escola jamais havia olhado para ele, muito menos puxado assunto com
tanta naturalidade. — Como você sabe sobre o Nilo?
Maya deu um sorriso lateral, misterioso.
— Eu presto atenção nas coisas que os outros ignoram. E
você tem um cheiro interessante, Lucas. Diferente. Quente.
Antes que Lucas pudesse
formular qualquer resposta inteligente — ou fugir da vergonha —, Maya levantou-se
e aproximou-se dele com uma lentidão felina, quase hipnótica. O cheiro dela era
peculiar: não era perfume doce, mas sim um aroma denso de maresia profunda, sal
e algas frescas após a tempestade. Ela ergueu a mão enluvada e tocou de leve o
queixo dele, erguendo seu rosto.
— Quer dar o fora daqui? Conheço um lugar onde ninguém
vai nos perturbar. Nilo nenhum.
O coração de Lucas deu um
salto. O instinto de autopreservação de um garoto constantemente perseguido
gritava um leve alerta, mas a solidão e o calor daquele convite falaram mais
alto.
— Quero — respondeu ele, quase num sussurro.
Eles
caminharam por alguns quarteirões até entrarem em um beco escuro e sem saída,
nos fundos de um antigo armazém abandonado pelo porto. A chuva abafava os sons
da cidade, criando um casulo de isolamento.
Maya parou diante de uma parede coberta de heras e
virou-se para Lucas, os olhos brilhando na penumbra.
— Aqui estamos. Só nós dois.
Ela deu o primeiro passo e o puxou pela gola do moletom
para um beijo.
O contato foi eletrizante.
Os lábios de Maya eram macios, mas incrivelmente frios, enviando um arrepio
delicioso pela espinha de Lucas. Ele fechou os olhos, cedendo ao momento,
sentindo-se pela primeira vez na vida o herói de uma história, e não a vítima.
Mas então, o beijo mudou de figura.
A textura dentro da boca de
Maya começou a se mover. Algo flexível, espesso e úmido tateou o canto dos
lábios dele. Lucas abriu os olhos abruptamente, o fôlego travando na garganta.
O casaco
grosso de Maya havia se aberto. De dentro das dobras escuras da roupa, não
saíam apenas braços humanos, mas dezenas de apêndices finos, translúcidos e
viscosos — tentáculos dotados de pequenas ventosas que se contorciam,
esticavam-se e deslizavam pelo peito e pescoço dele com uma precisão
assustadora.
O cérebro de Lucas congelou. Ele tentou gritar, mas um
dos tentáculos mais grossos chicoteou com uma velocidade impossível,
enrolando-se firmemente ao redor de sua boca e nariz, abafando qualquer som em
um gemido abafado.
— Shh... — a voz de Maya soou doce, sussurrada bem
dentro da mente dele, enquanto os olhos negros fitavam os dele com uma calma
predadora. — Não precisa ter medo, meu bem. Você não queria sumir de lá?
Lucas debateu-se, as mãos
arranhando o ar e os tentáculos gelados que o envolviam como uma camisa de
força de borracha. Uma queimação intensa começou a se alastrar por sua pele
onde as ventosas tocavam; o veneno paralisante de Maya corria rápido por sua
corrente sanguínea, transformando seus músculos em chumbo derretido. O oxigênio
nos pulmões esgotou-se em segundos.
Enquanto
a visão de Lucas escurecia e o mundo ao redor desvanecia no silêncio daquela
noite chuvosa, o último som que ele ouviu foi o susurro satisfeito da garota
polvo, aconchegando o corpo moribundo dele contra o seu peito úmido.
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