domingo, 20 de setembro de 2026

O Beijo da Meia-Noite

 


A chuva batia rítmica e fria contra os abrigos de zinco enferrujado do ponto de ônibus na Avenida dos Engenheiros. Lucas encolheu-se ainda mais dentro do capuz do moletom cinza, tentando ignorar a dor latejante na costela. Nilo e seus capangas tinham sido especialmente criativos hoje na saída do colégio técnico. Para eles, o fato de Lucas passar horas consertando placas-mãe velhas e lendo mangás de ficção científica era uma ofensa pessoal que só podia ser lavada com empurrões nos armários e hematomas roxos.

Lucas respirou fundo, puxando o ar úmido e fedendo a escapamento de ônibus, desejando sumir da face da Terra.

— Odeio este lugar — murmurou ele, limpando um óculos embaçado com a manga do casaco.

— Eu também detestaria, se deixasse aqueles macacos ditarem o ritmo da minha respiração.

Lucas sobressaltou-se. Sentada no banco de concreto, bem ao lado dele, estava uma garota que ele jurava não estar ali um segundo antes. Ela vestia um casaco de lã preto, volumoso, com o capuz puxado para baixo fazendo sombra sobre o rosto, mas os lábios — carnudos, de um tom roxo-escuro quase magnético — formavam um sorriso intrigante.

— Ah... desculpa, eu pensei alto? — Lucas gaguejou, sentindo as bochechas esquentarem.

— Pensou. E alto demais — disse ela, virando-se para encará-lo com olhos redondos, escuros como poços sem fundo, que pareciam brilhar com um reflexo oleoso sob a lâmpada queimada do poste. — Sou Maya. E você é o garoto que prefere microchips a valentões estúpidos.

— Lucas. — Ele engoliu em seco, fascinado. Nenhuma garota na escola jamais havia olhado para ele, muito menos puxado assunto com tanta naturalidade. — Como você sabe sobre o Nilo?

Maya deu um sorriso lateral, misterioso.

— Eu presto atenção nas coisas que os outros ignoram. E você tem um cheiro interessante, Lucas. Diferente. Quente.

Antes que Lucas pudesse formular qualquer resposta inteligente — ou fugir da vergonha —, Maya levantou-se e aproximou-se dele com uma lentidão felina, quase hipnótica. O cheiro dela era peculiar: não era perfume doce, mas sim um aroma denso de maresia profunda, sal e algas frescas após a tempestade. Ela ergueu a mão enluvada e tocou de leve o queixo dele, erguendo seu rosto.

— Quer dar o fora daqui? Conheço um lugar onde ninguém vai nos perturbar. Nilo nenhum.

O coração de Lucas deu um salto. O instinto de autopreservação de um garoto constantemente perseguido gritava um leve alerta, mas a solidão e o calor daquele convite falaram mais alto.

— Quero — respondeu ele, quase num sussurro.

Eles caminharam por alguns quarteirões até entrarem em um beco escuro e sem saída, nos fundos de um antigo armazém abandonado pelo porto. A chuva abafava os sons da cidade, criando um casulo de isolamento.

Maya parou diante de uma parede coberta de heras e virou-se para Lucas, os olhos brilhando na penumbra.

— Aqui estamos. Só nós dois.

Ela deu o primeiro passo e o puxou pela gola do moletom para um beijo.

O contato foi eletrizante. Os lábios de Maya eram macios, mas incrivelmente frios, enviando um arrepio delicioso pela espinha de Lucas. Ele fechou os olhos, cedendo ao momento, sentindo-se pela primeira vez na vida o herói de uma história, e não a vítima.

Mas então, o beijo mudou de figura.

A textura dentro da boca de Maya começou a se mover. Algo flexível, espesso e úmido tateou o canto dos lábios dele. Lucas abriu os olhos abruptamente, o fôlego travando na garganta.

O casaco grosso de Maya havia se aberto. De dentro das dobras escuras da roupa, não saíam apenas braços humanos, mas dezenas de apêndices finos, translúcidos e viscosos — tentáculos dotados de pequenas ventosas que se contorciam, esticavam-se e deslizavam pelo peito e pescoço dele com uma precisão assustadora.

O cérebro de Lucas congelou. Ele tentou gritar, mas um dos tentáculos mais grossos chicoteou com uma velocidade impossível, enrolando-se firmemente ao redor de sua boca e nariz, abafando qualquer som em um gemido abafado.

— Shh... — a voz de Maya soou doce, sussurrada bem dentro da mente dele, enquanto os olhos negros fitavam os dele com uma calma predadora. — Não precisa ter medo, meu bem. Você não queria sumir de lá?

Lucas debateu-se, as mãos arranhando o ar e os tentáculos gelados que o envolviam como uma camisa de força de borracha. Uma queimação intensa começou a se alastrar por sua pele onde as ventosas tocavam; o veneno paralisante de Maya corria rápido por sua corrente sanguínea, transformando seus músculos em chumbo derretido. O oxigênio nos pulmões esgotou-se em segundos.

Enquanto a visão de Lucas escurecia e o mundo ao redor desvanecia no silêncio daquela noite chuvosa, o último som que ele ouviu foi o susurro satisfeito da garota polvo, aconchegando o corpo moribundo dele contra o seu peito úmido.

 

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