Sob o dorso colossal do pneu de caminhão,
no chão de graxa, pó e febril destino,
ela tinha o negrume da noite na extensão
dos cabelos que a alma guardou no desatino.
Era um corpo de fado, um abismo de mistério,
enquanto o sol feria o metal da carroceria;
ali, no chão bruto, vertemos o ministério
da carne que se entrega e da sede que sacia.
"Até amanhã", disse a boca de sombra e brasa,
promessa colhida no vento daquela estrada.
Mas o caminhão partiu, levando a imensa asa
daquela hora fugaz, que virou madrugada.
Nunca mais os olhos negros brilharam na esquina,
nunca mais o pneu freou na poeira e no pó;
ficou apenas o eco, a estranha e funda ruína
de um encontro que o tempo levou e me deixou só.
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