Nas sombras túmidas da sertaneja solidão, onde a terra calcinada racha em cicatrizes de bronze e fogo, ergueu-se a aparição.
Não era a ave agoureira dos velhos mitos, senão um resumo de trevas com asas: a coruja silente, de olhos redondos como sóis extintos, fitava o abismo do meu espanto.
Sob o pálio da noite cruenta, a penugem abateu-se em escamas de carne;
O bico curvo dissolveu-se em lábios de obsidiana e murmúrios de cinza;
As garras cravadas no galho seco cederam lugar a pés de estátua antiga;
E a ave trágica ergueu-se mulher, soberana e terrível no seu desterro.
Ergue-se o tempo sobre escombros de ferro e sal! Vede a terra que se rasga em estertores! O homem, prepotente na sua pequenez, colherá o fruto podre do seu próprio orgulho, e os rios correrão em sangue até o mar do nada!
Profetizava com voz de trovão subterrâneo, o Verbo esculpido no granito da desolação. O ar rarefeito condensava-se em suor e pavor; o mundo parecia vergar-se sob o peso daquela sentença inapelável, decretada pelos ermos e pelo destino.
E antes que o grito de pânico me irrompesse da garganta travada, deu-se o prodígio final. Num relance de treva e fulgor, a forma escultural desfez-se em névoa morna. Diante dos meus olhos desvairados, mergulhou e sumiu, como um eco noturno, em um seio belo e negro, abismo vivo onde a noite enfim repousa e o universo se consuma.
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