domingo, 20 de setembro de 2026

O Fundo do Poço

 


O silêncio na vila de Ribeirão das Pedras fedia a medo. Nos últimos três meses, quatro crianças, todas entre quatro e cinco anos de idade, haviam desaparecido sem deixar o menor vestígio. Sem pedidos de resgate, sem roupas abandonadas, sem pegadas. Apenas uma névoa rala que descia do matagal nos fundos do vilarejo e o eco distante de uma cantiga infantil desafinada, vinda de dentro de um antigo poço de pedra desativado, esquecido no meio da mata.

O detetive Álvaro chegou ao local com a sola da bota chapinhando na lama e o cenho franzido. Ele olhou para a borda do poço, construído com pedras pretas e musgosas que pareciam absorver a luz do dia. O cheiro que subia dali não era de água estagnada; era o odor adocicado e nauseante de carne em decomposição misturado com perfume de infância.

— Ninguém chega perto disso aqui depois das seis da tarde, seu delegado — murmurou o velho zelador da paróquia, segurando um terço com nós nos dedos. — Dizem que o poço não tem fundo. E que quem chama pelas crianças não é gente.

Álvaro ignorou a superstição. Era um homem de leis, cético e calejado. Pegou uma lanterna de alta potência, debruçou-se sobre a mureta de pedra e apontou o facho para a escuridão.

A luz cortou o abismo, mas parecia morrer a poucos metros de profundidade, engolida por uma treva espessa, viva. No entanto, o que fez o sangue do detetive gelar foi o reflexo na lâmina d'água lá no fundo: dezenas de pequenos sapatos coloridos, bonecas rasgadas e... um par de olhos amarelos, brilhantes como brasas, que o encaravam de volta.

Antes que Álvaro pudesse recuar, um som raspado e úmido ecoou pelas paredes de pedra.

Venha brincar, Álvaro... o fundo é quentinho...

Uma rajada de vento gélido, carregada de gritos abafados de crianças, explodiu de dentro do poço. As mãos de Álvaro perderam a força; um vapor negro e viscoso brotou das frestas da pedra, erguendo-se como tentáculos fétidos que agarraram seus tornozelos. O detetive gritou, desabando no chão enquanto a força invisível o arrastava para a borda.

— Socorro! — tentou berrar, mas o ar faltava em seus pulmões, sufocado pelo bafo daquela entidade ancestral.

A criatura emergiu parcialmente: uma massa disforme de sombras e carne putrefata, ostentando dezenas de rostos infantis chorosos fundidos em sua pele. Ela puxou Álvaro para a beirada, pronta para despachá-lo para o abismo.

Abrenuntio te, satana! — ecoou uma voz firme pela mata.

Um clarão dourado cortou a treva. O Padre Miguel avançou correndo, vestindo sua batina escura, erguendo bem alto um crucifixo de prata maciça que cintilava com uma luz quase dolorosa. Ao seu lado, jogou uma garrafa de água benta diretamente no âmago da fumaça negra.

A entidade sibilou, um som estridente de metal retorcido e milhares de crianças chorando juntas. Os tentáculos que estrangulavam Álvaro afrouxaram instantaneamente. O detetive caiu de bruços na lama, tossindo sangue e ar, com os olhos arregalados de pavor.

— Não deixe ele fugir, padre! — engasgou-se Álvaro.

Padre Miguel deu dois passos firmes até a borda do poço, fincando a cruz na pedra fria. Com uma serenidade férrea, o sacerdote começou a recitar o rito de exorcismo em latim, sua voz cortando o vento gelado como uma lâmina:

Exorcizo te, omnis immunde spiritus, omnis satanica potestas... Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ordeno que voltes para as profundezas de onde vieste!

O poço inteiro começou a tremer. As pedras rangiam como ossos estalando. A criatura uivou em fúria cega, esticando braços longos e descarnados para tentar puxar o padre, mas a luz da cruz feria sua essência impura.

Exi, maledicte! In ignem aeternum! — bradou o padre, jogando um punhado de sal bento diretamente nas profundezas.

Um clarão vermelho-sangue irrompeu do fundo do poço, seguido por um rugido ensurdecedor que sacudiu as árvores ao redor. A massa negra foi violentamente sugada para baixo, puxada por correntes invisíveis de fogo que rasgaram a terra. O cheiro de enxofre tomou conta do ar por um breve segundo antes de tudo silenciar.

A névoa sumiu. A luz da manhã começou a romper as copas das árvores, dourando a clareza da mata.

O Padre Miguel recolheu a cruz, respirando fundo, o suor escorrendo pela testa enrugada. Ele se abaixou para ajudar o detetive a se levantar.

— Acabou, filho — disse o padre, com um sorriso cansado. — A criatura foi banida. Mandada de volta para o inferno. Para sempre.

Álvaro olhou para o fundo do poço, agora apenas um buraco d'água comum, escuro e vazio. Ele sabia que o pesadelo havia terminado, mas o eco daquelas vozes infantis nunca mais sairia de sua mente.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário