O silêncio na vila de
Ribeirão das Pedras fedia a medo. Nos últimos três meses, quatro crianças,
todas entre quatro e cinco anos de idade, haviam desaparecido sem deixar o
menor vestígio. Sem pedidos de resgate, sem roupas abandonadas, sem pegadas.
Apenas uma névoa rala que descia do matagal nos fundos do vilarejo e o eco
distante de uma cantiga infantil desafinada, vinda de dentro de um antigo poço
de pedra desativado, esquecido no meio da mata.
O detetive Álvaro chegou ao
local com a sola da bota chapinhando na lama e o cenho franzido. Ele olhou para
a borda do poço, construído com pedras pretas e musgosas que pareciam absorver
a luz do dia. O cheiro que subia dali não era de água estagnada; era o odor
adocicado e nauseante de carne em decomposição misturado com perfume de
infância.
— Ninguém chega perto disso aqui depois das seis da
tarde, seu delegado — murmurou o velho zelador da paróquia, segurando um terço
com nós nos dedos. — Dizem que o poço não tem fundo. E que quem chama pelas
crianças não é gente.
Álvaro ignorou a superstição.
Era um homem de leis, cético e calejado. Pegou uma lanterna de alta potência,
debruçou-se sobre a mureta de pedra e apontou o facho para a escuridão.
A luz cortou o abismo, mas
parecia morrer a poucos metros de profundidade, engolida por uma treva espessa,
viva. No entanto, o que fez o sangue do detetive gelar foi o reflexo na lâmina
d'água lá no fundo: dezenas de pequenos sapatos coloridos, bonecas rasgadas
e... um par de olhos amarelos, brilhantes como brasas, que o encaravam de
volta.
Antes que Álvaro pudesse recuar, um som raspado e úmido
ecoou pelas paredes de pedra.
Venha
brincar, Álvaro... o fundo é quentinho...
Uma rajada
de vento gélido, carregada de gritos abafados de crianças, explodiu de dentro
do poço. As mãos de Álvaro perderam a força; um vapor negro e viscoso brotou
das frestas da pedra, erguendo-se como tentáculos fétidos que agarraram seus
tornozelos. O detetive gritou, desabando no chão enquanto a força invisível o
arrastava para a borda.
— Socorro! — tentou berrar, mas o ar faltava em seus
pulmões, sufocado pelo bafo daquela entidade ancestral.
A criatura emergiu parcialmente: uma massa disforme de
sombras e carne putrefata, ostentando dezenas de rostos infantis chorosos
fundidos em sua pele. Ela puxou Álvaro para a beirada, pronta para despachá-lo
para o abismo.
— Abrenuntio
te, satana! — ecoou uma voz firme pela mata.
Um clarão dourado cortou a
treva. O Padre Miguel avançou correndo, vestindo sua batina escura, erguendo
bem alto um crucifixo de prata maciça que cintilava com uma luz quase dolorosa.
Ao seu lado, jogou uma garrafa de água benta diretamente no âmago da fumaça
negra.
A entidade sibilou, um som
estridente de metal retorcido e milhares de crianças chorando juntas. Os
tentáculos que estrangulavam Álvaro afrouxaram instantaneamente. O detetive
caiu de bruços na lama, tossindo sangue e ar, com os olhos arregalados de pavor.
— Não deixe ele fugir, padre! — engasgou-se Álvaro.
Padre Miguel deu dois passos
firmes até a borda do poço, fincando a cruz na pedra fria. Com uma serenidade
férrea, o sacerdote começou a recitar o rito de exorcismo em latim, sua voz
cortando o vento gelado como uma lâmina:
— Exorcizo
te, omnis immunde spiritus, omnis satanica potestas... Em nome do Pai, do Filho
e do Espírito Santo, ordeno que voltes para as profundezas de onde vieste!
O poço inteiro começou a tremer. As pedras rangiam como
ossos estalando. A criatura uivou em fúria cega, esticando braços longos e
descarnados para tentar puxar o padre, mas a luz da cruz feria sua essência
impura.
— Exi,
maledicte! In ignem aeternum! — bradou o padre, jogando um punhado de sal
bento diretamente nas profundezas.
Um clarão vermelho-sangue
irrompeu do fundo do poço, seguido por um rugido ensurdecedor que sacudiu as
árvores ao redor. A massa negra foi violentamente sugada para baixo, puxada por
correntes invisíveis de fogo que rasgaram a terra. O cheiro de enxofre tomou
conta do ar por um breve segundo antes de tudo silenciar.
A névoa sumiu. A luz da manhã começou a romper as copas
das árvores, dourando a clareza da mata.
O Padre Miguel recolheu a
cruz, respirando fundo, o suor escorrendo pela testa enrugada. Ele se abaixou
para ajudar o detetive a se levantar.
— Acabou, filho — disse o padre, com um sorriso
cansado. — A criatura foi banida. Mandada de volta para o inferno. Para sempre.
Álvaro olhou para o fundo do poço, agora apenas um
buraco d'água comum, escuro e vazio. Ele sabia que o pesadelo havia terminado,
mas o eco daquelas vozes infantis nunca mais sairia de sua mente.
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