O ar abafado de Santos parecia grudar na pele
de Katty como uma segunda camada de verniz barato. Ela desceu do táxi ajustando
o decote do vestido justo, sentindo os saltos agulhas cravarem no asfalto
quente da madrugada. Os cabelos loiros platinados caíam sobre os ombros, úmidos
pelo suor e pela maresia pesada que vinha do porto.
Era
considerada uma das mulheres mais deslumbrantes daquela zona portuária
decadente. Homens de todas as origens — turistas europeus, marinheiros
noruegueses, engravatados paulistas — desfilavam por seu apartamento oferecendo
notas altas apenas para ter o privilégio de contemplá-la. Mas por dentro, Katty
era um deserto de gelo. O corpo respondia por inércia, um mecanismo biológico
treinado para simular o êxtase, enquanto a mente permanecia fria, entorpecida
por uma apatia intransponível. Ninguém a tocava de verdade. Ninguém alcançava o
abismo silencioso onde sua alma parecia ter se refugiado.
Ao
girar a chave na fechadura do quarto no segundo andar, sentiu o cheiro.
Não
era o odor rançoso de mofo e cigarro que costumava impregnar as paredes
descascadas. Era algo densamente ancestral, um perfume metálico que lembrava
cobre aquecido, algas marinhas apodrecidas ao sol e o ozônio estático que
precede uma tempestade elétrica devastadora.
O coração de Katty falhou
uma batida. As sombras do canto do quarto não eram apenas sombras. Elas se
retorciam, ondulando com uma lentidão hipnótica e perturbadora.
De cima do colchão
desmanchado, ergueu-se a criatura.
A
mente humana não foi feita para computar o que ela viu, mas seus instintos
primitivos não vacilaram. A silhueta era imensa, vagamente antropomórfica, mas
revestida por uma carapaça translúcida que pulsava com uma luz interna de tons
violeta e verde-esmeralda. Dezenas de tentáculos espessos, cobertos por
pequenas ventosas que pareciam respirar de forma autônoma, deslizavam pelo chão
de madeira como serpentes marinhas famintas. Dois olhos imensos, sem pálpebras,
compostos por constelações de rubis líquidos, fitaram-no fundo dos olhos de
Katty.
Não houve medo. Houve
reconhecimento.
Quando
os tentáculos frios e escorregadios tocaram seus tornozelos, subindo em
espirais sinuosas por suas coxas e cintura, Katty soltou um suspiro que vinha
do fundo de suas entranhas. Não era o toque de um homem; era a carícia de um
oceano cósmico e primordial. As ventosas não machucavam; elas mapeavam cada
terminação nervosa com uma precisão cirúrgica e alienígena, enviando impulsos
elétricos que percorreram sua espinha como a fúria de um raio.
Aquele
abraço monstruoso rompeu a barragem de gelo que a aprisionara por anos. Naquele
delírio febril, iluminado pelo brilho fosforescente da pele do ser, Katty
gritou o nome de deuses que os livros de história esqueceram. Foi um ato de
comunhão blasfema e sublime, um choque entre mundos que desafiava a própria
geometria da realidade.
Quando
o sol rasgou o horizonte cinzento da Baixada Santista, derramando uma luz crua
e impiedosa pela janela sem cortinas, o quarto estava vazio.
A criatura havia sumido.
Não restara poeira, nem pegadas, apenas uma fina película iridescente no
assoalho e o eco distante do mar batendo contra os pilares do cais. O corpo de
Katty formigava, dolorido, mas pela primeira vez em sua vida, profundamente
vivo.
Sentada
à escrivaninha de madeira gasta, diante de uma máquina de escrever Olivetti
antiga, Katty encaixou uma folha de papel em branco. Os dedos longos tremiam
levemente, mas começaram a bater nas teclas com uma urgência maníaca. Ela não
mandaria aquilo para a polícia — eles a internariam. Mandaria para o jornal
local, na seção de cartas e bizarrices, sabendo que ninguém acreditaria. Mas
ela precisava registrar, antes que a lembrança começasse a desbotar como um
sonho ruim.
"Para quem quiser ler nas entrelas das páginas
policiais:"
"Ele veio do fundo negro entre as estrelas, onde
o tempo não passa e os oceanos guardam segredos que a ciência ousa ignorar. Não
procurem por ele nas favelas ou nos porcos da cidade. Ele esteve aqui, na Rua
XV de Novembro, e me mostrou o que significa arder por dentro. Se vocês acham
que conhecem o mundo, estão cegos. O abismo tem tentáculos, e ele é
quente."
Katty tirou o papel,
dobrou-o com cuidado e sorriu para o reflexo de seus próprios olhos no vidro da
janela. O gelo havia derretido para sempre.
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