domingo, 20 de setembro de 2026

O Abismo de Tentáculos - conto

 

O ar abafado de Santos parecia grudar na pele de Katty como uma segunda camada de verniz barato. Ela desceu do táxi ajustando o decote do vestido justo, sentindo os saltos agulhas cravarem no asfalto quente da madrugada. Os cabelos loiros platinados caíam sobre os ombros, úmidos pelo suor e pela maresia pesada que vinha do porto.

Era considerada uma das mulheres mais deslumbrantes daquela zona portuária decadente. Homens de todas as origens — turistas europeus, marinheiros noruegueses, engravatados paulistas — desfilavam por seu apartamento oferecendo notas altas apenas para ter o privilégio de contemplá-la. Mas por dentro, Katty era um deserto de gelo. O corpo respondia por inércia, um mecanismo biológico treinado para simular o êxtase, enquanto a mente permanecia fria, entorpecida por uma apatia intransponível. Ninguém a tocava de verdade. Ninguém alcançava o abismo silencioso onde sua alma parecia ter se refugiado.

Ao girar a chave na fechadura do quarto no segundo andar, sentiu o cheiro.

Não era o odor rançoso de mofo e cigarro que costumava impregnar as paredes descascadas. Era algo densamente ancestral, um perfume metálico que lembrava cobre aquecido, algas marinhas apodrecidas ao sol e o ozônio estático que precede uma tempestade elétrica devastadora.

O coração de Katty falhou uma batida. As sombras do canto do quarto não eram apenas sombras. Elas se retorciam, ondulando com uma lentidão hipnótica e perturbadora.

De cima do colchão desmanchado, ergueu-se a criatura.

A mente humana não foi feita para computar o que ela viu, mas seus instintos primitivos não vacilaram. A silhueta era imensa, vagamente antropomórfica, mas revestida por uma carapaça translúcida que pulsava com uma luz interna de tons violeta e verde-esmeralda. Dezenas de tentáculos espessos, cobertos por pequenas ventosas que pareciam respirar de forma autônoma, deslizavam pelo chão de madeira como serpentes marinhas famintas. Dois olhos imensos, sem pálpebras, compostos por constelações de rubis líquidos, fitaram-no fundo dos olhos de Katty.

Não houve medo. Houve reconhecimento.

Quando os tentáculos frios e escorregadios tocaram seus tornozelos, subindo em espirais sinuosas por suas coxas e cintura, Katty soltou um suspiro que vinha do fundo de suas entranhas. Não era o toque de um homem; era a carícia de um oceano cósmico e primordial. As ventosas não machucavam; elas mapeavam cada terminação nervosa com uma precisão cirúrgica e alienígena, enviando impulsos elétricos que percorreram sua espinha como a fúria de um raio.

Aquele abraço monstruoso rompeu a barragem de gelo que a aprisionara por anos. Naquele delírio febril, iluminado pelo brilho fosforescente da pele do ser, Katty gritou o nome de deuses que os livros de história esqueceram. Foi um ato de comunhão blasfema e sublime, um choque entre mundos que desafiava a própria geometria da realidade.

Quando o sol rasgou o horizonte cinzento da Baixada Santista, derramando uma luz crua e impiedosa pela janela sem cortinas, o quarto estava vazio.

A criatura havia sumido. Não restara poeira, nem pegadas, apenas uma fina película iridescente no assoalho e o eco distante do mar batendo contra os pilares do cais. O corpo de Katty formigava, dolorido, mas pela primeira vez em sua vida, profundamente vivo.

Sentada à escrivaninha de madeira gasta, diante de uma máquina de escrever Olivetti antiga, Katty encaixou uma folha de papel em branco. Os dedos longos tremiam levemente, mas começaram a bater nas teclas com uma urgência maníaca. Ela não mandaria aquilo para a polícia — eles a internariam. Mandaria para o jornal local, na seção de cartas e bizarrices, sabendo que ninguém acreditaria. Mas ela precisava registrar, antes que a lembrança começasse a desbotar como um sonho ruim.

"Para quem quiser ler nas entrelas das páginas policiais:"

"Ele veio do fundo negro entre as estrelas, onde o tempo não passa e os oceanos guardam segredos que a ciência ousa ignorar. Não procurem por ele nas favelas ou nos porcos da cidade. Ele esteve aqui, na Rua XV de Novembro, e me mostrou o que significa arder por dentro. Se vocês acham que conhecem o mundo, estão cegos. O abismo tem tentáculos, e ele é quente."

Katty tirou o papel, dobrou-o com cuidado e sorriu para o reflexo de seus próprios olhos no vidro da janela. O gelo havia derretido para sempre.

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário