O
cheiro de gordura saturada e batatas fritas mergulhadas em óleo quente era o
perfume favorito de Melissa. Ela trabalhava no caixa do Drive-Thru do
McDonald's na Av. das Américas, um posto avançado da felicidade calórica. Para
ela, um Big Mac não era apenas comida; era um abraço oleoso, um sedativo para
uma ansiedade crônica que ela nunca soube explicar.
Mas nos últimos dois
meses, o amor virou uma maldição. Aquele abraço reconfortante transformou-se
numa camisa de força. A fome de Melissa mudou. Deixou de ser o desejo por sabor
e tornou-se um vazio abissal, um buraco negro no meio de seu estômago que
gritava por nutrição, qualquer nutrição, a cada segundo acordado.
Ela comia tudo o que via.
Batatas, nuggets, milk-shakes, a sobra dos clientes, o estoque da despensa.
Chegou a rasgar sacos de ração do cachorro de sua vizinha numa noite de
desespero febril, mastigando os grânulos secos com dentes trincados. Mas a fome
não passava. Ela roncava, pulsava, uma criatura viva dentro dela que exigia
cada vez mais. Melissa estava emaciada, com olheiras profundas, as bochechas chupadas,
mas seu abdômen estava distendido, duro como pedra, inchado com o que ela
colocava para dentro, mas o vazio continuava.
Foi
numa terça-feira chuvosa, por volta das três da manhã. O Drive-Thru estava
deserto. A campainha tocou. Era um carro velho, um Gol amassado. O motorista
era um homem grande, com uma barba espessa e um casaco de couro surrado. Ele
pediu o básico: dois Big Macs, duas grandes e um refrigerante de dois litros.
Quando ele abriu a janela
para pagar, seus olhos encontraram os de Melissa. Eles eram gentis, cansados.
Ele sorriu, oferecendo uma nota de R$ 50.
— Fica com o troco, moça.
Parece que você está precisando comer algo, com todo respeito.
Melissa pegou o dinheiro,
mas não viu a nota. Viu uma veia saltando no pescoço dele. Viu o movimento da
mandíbula dele ao falar. Ouviu, não o som da voz dele, mas um sussurro rouco,
sibilante, que parecia vir de trás de sua própria garganta: Sim. Carne. Doce.
A
fome explodiu numa dor lancinante. O mundo ao seu redor escureceu, restando
apenas a visão em túnel focada no homem. Ela não pensou. Ela atacou. Antes que
ele pudesse reagir, ela saltou pela janela do balcão, cravando as unhas imundas
no pescoço dele. A força foi sobre-humana. Ela era pequena, mas naquele
momento, ela era um mecanismo de caça puro.
O homem, um ex-lutador de
jiu-jitsu amador, tentou se defender, mas a energia de Melissa era insana, uma
fúria cega e mecânica. Ela mordeu a jugular dele com uma ferocidade canibal. O
sangue jorrou, quente e metálico. Melissa bebeu e comeu, sem mastigar, apenas
engolindo pedaços grandes, rasgando a carne como uma escavadora biológica.
A
fome silenciou por um breve momento glorioso, substituída por uma sensação de
saciedade nauseante. Ela estava coberta de sangue, sentada no chão do
Drive-Thru, com os restos mortais do pobre homem ao seu redor.
O choque veio depois. A
consciência do que ela tinha feito. O pânico. Mas junto com o pânico, veio um
movimento estranho sob sua pele. Um ondular grotesco em seu estômago
distendido.
Ela
correu para o banheiro dos funcionários e vomitou, mas não saiu apenas o Big
Mac do homem. Saíram coisas escuras, viscosas, ovos pretos e gelatinosos do
tamanho de bolas de golfe que se desmanchavam na privada, emitindo um cheiro
fétido de enxofre.
No espelho, ela viu algo
se mover na lateral de seu pescoço. Uma protuberância que não deveria estar lá.
— O que é você? —
sibilou ela, tremendo.
Uma voz respondeu, não
vinda do espelho, mas do próprio córtex cerebral dela, fria, alienígena e
implacável.
Nós não somos um "você". Nós somos a
Colônia. E nós estamos com fome, hospedeira.
A voz explicou tudo. A
fome incontrolável não era dela. Era o parasita, uma entidade de origem
desconhecida, instalada profundamente em suas vísceras, que se alimentava de tudo
o que ela comia, usando o corpo dela como uma incubadora voraz e ineficiente. E
ele estava crescendo.
A carne bovina não é suficiente, continuou a voz na cabeça de Melissa, zombando de seu
gosto por fast food. Os
nutrientes complexos de um cérebro humano e a musculatura rica em proteínas…
isso é combustível. Você nos alimentou. Mas precisamos mais. Sempre mais.
Nos
meses seguintes, Melissa tornou-se uma lenda urbana sombria na cidade. Ela
deixou o emprego e passou a caçar. Mais pessoas desapareceram. Mendigos,
bêbados solitários, casais namorando em carros parados na orla. Ela os devorava
com uma eficiência horrível, impulsionada pela dor da fome que retornava cada
vez mais rápido, cada vez mais intensa. A Colônia estava satisfeita, crescendo
dentro dela, transformando seu corpo numa casca grotesca. Ela não tinha
controle. Ela era a passageira num trem desgovernado para o inferno.
A
revelação final veio quando a barriga de Melissa, já tão grande que ela não
conseguia se sentar, começou a se contorcer em padrões rítmicos e dolorosos. A
voz da Colônia retornou, em tom de conclusão.
A incubação está completa. O desperdício biológico do
hospedeiro chegou ao fim.
A dor era insuportável,
como se seus órgãos internos estivessem sendo dissolvidos por ácido. Melissa
caiu no chão de seu apartamento imundo, rastejando em seu próprio sangue e
fluidos fétidos que vazavam de todos os seus orifícios.
Agora, você será o banquete final.
As mãos de Melissa,
contra sua vontade, começaram a tremer. Uma delas, com unhas afiadas e
quebradas, ergueu-se lentamente. Ela sentiu a Colônia assumir o controle total
de seus membros.
A mão agarrou a própria
pele do abdômen estendido e a puxou. A carne, fina como papel esticado, cedeu
com um som úmido. O sangue jorrou.
Melissa
gritou, mas sua voz era abafada pelos guinchos triunfantes da Colônia em sua
mente. A outra mão entrou na cavidade abdominal, revirando os intestinos,
tateando. Ela via, numa dissociação horrível, sua própria mão segurando seu
fígado, arrancando-o, e o levando à boca.
Ela mastigou. Não sentiu
gosto de nada, apenas a textura morna e úmida. A Colônia a forçava a se
auto-devorar, pedaço por pedaço. Músculo da coxa, gordura visceral, um rim.
Enquanto seus próprios
dedos arrancavam seu coração batendo do peito e o levavam aos lábios, Melissa,
na escuridão final de sua consciência, percebeu a ironia suprema. Ela sempre
quis comer até explodir, comer algo que a preenchesse. No final, ela conseguiu.
Ela comeu tudo.
Tudo.
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