No galho da goiabeira,
no meio da noite de Adamantina,
estava a coruja.
Olhos redondos, implacables, de poeira e silêncio.
Olhava-me com a insistência do destino.
De súbito, a pena cedeu lugar à carne.
O bico converteu-se em lábios de brasa,
as asas desmancharam-se em braços nus,
e a ave noturna fez-se mulher.
Mulher de uma beleza áspera,
do tempo antigo e do pânico.
Ergueu o dedo magro e profetizou:
— O mundo vai acabar na terça-feira.
Não haverá perdão para os distritos,
nem para os trens de carga,
nem para a memória dos aflitos.
Tudo virará cinza e esquecimento.
Fiquei estátua de sal e espanto,
suando frio na calçada escura.
Antes que eu pudesse gritar por socorro
ou pedir clemência ao universo,
ela deu um passo em direção ao meu peito
e sumiu,
misteriosa e inteira,
em um seio belo e negro
que se abriu diante dos meus olhos
em pânico.
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