A névoa úmida suspende o fôlego na esquina,
sob a carcaça de ferro e o poste cego;
o tempo rasga a carne em que me entrego
a esta febril e densa luz que nos ilumina.
Na penumbra do quarto o mundo se desfaz,
e o corpo negro, imenso, ergue-se em brasa;
na ânsia sagrada que nos invade e abrasa,
a boca o consagra na paz que ele traz.
O espumar branco salta em jacto puro,
fulgor breve na noite que nos condena,
enquanto o sorriso dele ilumina a cena.
E assim celebro o amor no templo escuro,
entre sinos mudos, o gozo e a dor tamanha:
homem com homem, a febre que nos entranha.
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