A necrópole de São Jerônimo fedia a cal virgem,
chuva retida no asfalto e promessas podres. Para Roberto, o cheiro da morte
nunca foi repulsivo; era o cheiro de comissão garantida. Suas mãos calejadas
pela pá raspavam a madeira úmida do caixão da vala 42. Um caixão de mogno
barato, supostamente vazio. Supostamente.
Quando a tampa cedeu com um estalo rançoso de
pregos cedendo, o facho da lanterna de Roberto varreu o interior forrado de
cetim mofado. Estava vazio. Quase.
Ali, repousando exatamente onde deveria estar o
dedo anelar de um cadáver ausente, brilhava uma obscenidade fria: um anel de
ouro pesado, incrustado com diamantes lapidados em roseta que pareciam sugar a
pouca luz ao redor. Roberto engoliu em seco. A saliva desceu como vidro moído.
— Ora, ora... — sussurrou ele, os olhos
arregalados, a cobiça apagando qualquer traço de decência. — HP. As iniciais
estão cravadas aqui dentro. H. P. Que se dane o HP. No mercado negro da
Baixada, isso aqui paga minha passagem para o México e três anos de boa vida.
Roberto puxou o anel com um puxão brusco. O ouro
estava gélido, como se tivesse passado o inverno na Antártida, e a pele de seu
dedo estalou num formigamento elétrico. Ele enfiou a joia no bolso fundo do
casaco, sentindo o peso reconfortante da pedra, e cuspiu na madeira podre antes
de começar a empurrar a terra de volta para a cova.
No quarto mofado de sua pensão, iluminado apenas
pela luz amarelada de uma lâmpada sem cúpula que balançava ao sabor da ventania
lá fora, Roberto espalhou o tesouro sobre a mesa de pinho.
Sob o clarão direto, os diamantes cintilavam com um
brilho quase sutil, quase orgânico, como escamas úmidas sob a luz da lua.
Roberto sorria, mostrando dentes amarelados, enquanto contava mentalmente as
notas de cem.
Foi quando o rádio chiou.
Não era interferência comum. Era um som de unhas
raspando madeira do lado de dentro do verniz, seguido por um guincho abafado,
longo e seco, que parecia vir diretamente do fundo do estômago.
Roberto travou. O sorriso congelou em seu rosto.
— Quem está aí? — rosnou ele, puxando uma chave de
fenda enferrujada da cintura.
O som parou. O silêncio que se seguiu na pensão era
denso, pesado, o tipo de silêncio que precede um tiro ou um desabamento.
Então, o rádio explodiu em estática ensurdecedora,
e o cheiro mudou. O fedor de cal e chuva foi substituído por um odor fétido de
esgoto antigo, pelo bafo quente de um bicho que viveu séculos nos subterrâneos
de um cemitério.
Roberto virou-se devagar para a porta do banheiro.
A penumbra ali dentro parecia viva.
Do rodapé, escorreu uma forma.
Não era um rato comum. Tinha o corpo esguio, peludo
e nauseabundo de um roedor gigantesco, coberto de crostas de terra seca e pus,
arrastando uma cauda longa e escamosa que riscava o assoalho com um som de
lixa. Mas o que fez o sangue de Roberto gelar nos ossos, transformando suas
pernas em chumbo derretido, foi a cabeça.
Sobre o corpo do bicho havia um rosto humano. Um
rosto esticado, pálido como leite coalhado, com bochechas fundas, lábios roxos
e ressecados que revelavam dentes pontiagudos demais para um homem, e dois
olhos redondos, negros, brilhando com uma inteligência sádica e ancestral.
A criatura parou a dois passos de Roberto.
Ergueu-se sobre as patas traseiras, como um homem medindo um terno, e encarou o
ladrão.
— Você... — a voz saiu daquele focinho humano, um
sussurro rouco, arrastado, como cascalho rolando por um cano de metal. — Você
tirou o que é meu da minha casa, Roberto.
O ladrão cambaleou para trás, derrubando a cadeira
com um estrondo. A respiração faltou-lhe no peito.
— O... o quê? O que é você? Afasta-te, seu monstro!
— Roberto gritou, brandindo a chave de fenda como se aquilo pudesse deter um
pesadelo.
O ser deu um passo à frente. O rosto humano contorceu-se
num sorriso torto, sádico, revelando gengivas sangrentas.
— Eu sou H. P. E o anel... o anel tem memória,
Roberto. Ele sabe quem o toca. E eu vim buscar o que é meu. Por bem... ou por
mal.
A criatura deu o bote. No escuro daquele quarto
miserável, os gritos de Roberto misturaram-se ao som de ossos estalando e ao
brilho implacável dos diamantes na mesa.
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