O
crepúsculo na casa de campo do tio James nunca era apenas a transição do dia
para a noite; parecia uma respiração profunda que o mundo dava antes de se
trancar nos próprios segredos.
Lara estava
sentada no batente da porta dos fundos, distraída com o balançar das árvores,
quando o cascalho do caminho começou a tinir sob cascos pesados. Ela ergueu os
olhos, esperando encontrar um cavalo fugido da fazenda vizinha. Mas o que
emergiu da névoa rasteja não foi um animal comum.
A criatura
tinha o dorso e os ombros musculosos de um homem na força da idade, com a pele
tingida de um tom cinza-ardósia e marcas geométricas que brilhavam fracamente
como brasas sob a cinza. Do tronco para baixo, desdobrava-se o corpo reluzente
de um garanhão negro, cujos passos não faziam barulho de ferro, mas de cascos
pisando em musgo profundo.
Lara não
gritou. No universo de frestas e correntes de ar frias em que o tio James vivia
catalogando teorias impossíveis, aprender a não ter medo do inexplicável era o
primeiro requisito.
— Você está
na grama errada, garota — disse o centauro, a voz grave como o troar longínquo
de uma tempestade de outono. — Este lado do véu é pesado. Cheira a umidade,
ferro velho e futuros que já nasceram mofados.
— E você
está no jardim errado — retrucou Lara, erguendo o queixo com aquela soberba
típica dos quinze anos que tentam disfarçar o próprio tremor. — Aqui não há
pasto para criaturas de mito. O tio James diz que tudo o que restou de vocês
foram ossos enterrados em poeiras antigas.
O centauro
bufou, expelindo um vapor branco que cheirava a pinho e eletricidade estática.
Ele inclinou a cabeça, os olhos dourados e amendoados fixando-se nela com uma
curiosidade cortante.
— O seu tio
mede o universo com réguas de cobre e compassos tortos. Ele acha que o mundo é
um só, apenas mal desenhado. Mas lá em cima, nos altos prados de Ourea, o vento não sopra para
trás. Lá, a luz tem peso, e o pensamento de um homem pode ser medido em
centímetros de ouro líquido.
Lara sentiu
um arrepio na espinha, não de medo, mas de reconhecimento. Era a mesma sensação
que tinha quando folheava os diários de couro preto trancados na escrivaninha
do tio — a certeza incômoda de que a realidade era apenas a casca de uma
semente muito maior.
— É muito
solitário lá? — perguntou ela, deixando cair o galho seco que girava entre os
dedos. — Viver num lugar onde tudo é maior do que você?
O centauro
parou. Seus músculos contraíram-se sob a pele escura, e por um segundo ele
pareceu carregar nos ombros o peso de todas as estrelas que o tio James tentava
mapear em seus globos celestes de latão.
— A
solidão é o preço de não ter amarras, Lara — respondeu ele, olhando para a
chaminé da casa de campo, de onde subia um fio tênue de fumaça cinzenta. —
Vocês, humanos, têm o privilégio e a maldição de carregar o mundo em miniatura
dentro do peito. Amam coisas pequenas, perecíveis, que duram o tempo de um
suspiro. Nós... nós somos o horizonte. E o horizonte nunca chega a lugar
nenhum.
Um
silêncio denso caiu entre os dois, pontuado apenas pelo piado distante de uma
coruja. Lara olhou para as próprias mãos, pensando nas coisas miúdas que
compunham sua vida: os livros empilhados, o tic-tac insistente do relógio de
bolso do tio, o calor morno da lareira. De repente, o infinito de que o
centauro falava pareceu frio demais, desprovido de cantos aconchegantes onde se
esconder da chuva.
— Prefiro
o meu lado do véu — murmurou ela, com um sorriso irônico e triste. — Pelo menos
aqui temos fogões a lenha.
O centauro
soltou um relincho abafado, que soou quase como uma risada. Ele deu meia-volta,
fazendo o cascalho estalar sob as patas, e mergulhou de volta na neblina que
engolia a alameda de bétulas.
Quando o
tio James apareceu na porta, segurando uma xícara de chá fumegante e franzindo
a testa para o vazio, Lara já estava de pé, sacudindo a poeira da saia.
— Estava
falando sozinha, Lara? — perguntava o velho, ajustando os óculos no nariz
pontudo.
— Apenas
conversando sobre geografia, tio — disse ela, olhando para o lugar onde as
marcas dos cascos começavam a sumir, absorvidas pela terra úmida. — O senhor
realmente precisa atualizar seus mapas.
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