domingo, 20 de setembro de 2026

A Janela entre os Mundos

 


O crepúsculo na casa de campo do tio James nunca era apenas a transição do dia para a noite; parecia uma respiração profunda que o mundo dava antes de se trancar nos próprios segredos.

Lara estava sentada no batente da porta dos fundos, distraída com o balançar das árvores, quando o cascalho do caminho começou a tinir sob cascos pesados. Ela ergueu os olhos, esperando encontrar um cavalo fugido da fazenda vizinha. Mas o que emergiu da névoa rasteja não foi um animal comum.

A criatura tinha o dorso e os ombros musculosos de um homem na força da idade, com a pele tingida de um tom cinza-ardósia e marcas geométricas que brilhavam fracamente como brasas sob a cinza. Do tronco para baixo, desdobrava-se o corpo reluzente de um garanhão negro, cujos passos não faziam barulho de ferro, mas de cascos pisando em musgo profundo.

Lara não gritou. No universo de frestas e correntes de ar frias em que o tio James vivia catalogando teorias impossíveis, aprender a não ter medo do inexplicável era o primeiro requisito.

— Você está na grama errada, garota — disse o centauro, a voz grave como o troar longínquo de uma tempestade de outono. — Este lado do véu é pesado. Cheira a umidade, ferro velho e futuros que já nasceram mofados.

— E você está no jardim errado — retrucou Lara, erguendo o queixo com aquela soberba típica dos quinze anos que tentam disfarçar o próprio tremor. — Aqui não há pasto para criaturas de mito. O tio James diz que tudo o que restou de vocês foram ossos enterrados em poeiras antigas.

O centauro bufou, expelindo um vapor branco que cheirava a pinho e eletricidade estática. Ele inclinou a cabeça, os olhos dourados e amendoados fixando-se nela com uma curiosidade cortante.

— O seu tio mede o universo com réguas de cobre e compassos tortos. Ele acha que o mundo é um só, apenas mal desenhado. Mas lá em cima, nos altos prados de Ourea, o vento não sopra para trás. Lá, a luz tem peso, e o pensamento de um homem pode ser medido em centímetros de ouro líquido.

Lara sentiu um arrepio na espinha, não de medo, mas de reconhecimento. Era a mesma sensação que tinha quando folheava os diários de couro preto trancados na escrivaninha do tio — a certeza incômoda de que a realidade era apenas a casca de uma semente muito maior.

— É muito solitário lá? — perguntou ela, deixando cair o galho seco que girava entre os dedos. — Viver num lugar onde tudo é maior do que você?

O centauro parou. Seus músculos contraíram-se sob a pele escura, e por um segundo ele pareceu carregar nos ombros o peso de todas as estrelas que o tio James tentava mapear em seus globos celestes de latão.

— A solidão é o preço de não ter amarras, Lara — respondeu ele, olhando para a chaminé da casa de campo, de onde subia um fio tênue de fumaça cinzenta. — Vocês, humanos, têm o privilégio e a maldição de carregar o mundo em miniatura dentro do peito. Amam coisas pequenas, perecíveis, que duram o tempo de um suspiro. Nós... nós somos o horizonte. E o horizonte nunca chega a lugar nenhum.

Um silêncio denso caiu entre os dois, pontuado apenas pelo piado distante de uma coruja. Lara olhou para as próprias mãos, pensando nas coisas miúdas que compunham sua vida: os livros empilhados, o tic-tac insistente do relógio de bolso do tio, o calor morno da lareira. De repente, o infinito de que o centauro falava pareceu frio demais, desprovido de cantos aconchegantes onde se esconder da chuva.

— Prefiro o meu lado do véu — murmurou ela, com um sorriso irônico e triste. — Pelo menos aqui temos fogões a lenha.

O centauro soltou um relincho abafado, que soou quase como uma risada. Ele deu meia-volta, fazendo o cascalho estalar sob as patas, e mergulhou de volta na neblina que engolia a alameda de bétulas.

Quando o tio James apareceu na porta, segurando uma xícara de chá fumegante e franzindo a testa para o vazio, Lara já estava de pé, sacudindo a poeira da saia.

— Estava falando sozinha, Lara? — perguntava o velho, ajustando os óculos no nariz pontudo.

— Apenas conversando sobre geografia, tio — disse ela, olhando para o lugar onde as marcas dos cascos começavam a sumir, absorvidas pela terra úmida. — O senhor realmente precisa atualizar seus mapas.

 

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