para José Saramago
Onde está aquele grito, que passou,
E se foi, entre o povo brasileiro, solidão apenas...
Caminham os passos pelas ruas de paralelepípedo incerto,
Entre a poeira e o asfalto, no grande deserto
De uma pátria que se inventa e se desfaz.
Perguntam as mãos calejadas,
As bocas secas de esperança vã,
Onde foi parar a voz que rasgava a manhã?
Restou apenas o eco nas calçadas,
O silêncio denso que pesa nos ombros,
Enquanto a história recolhe os escombros.
Solidão de multitudes que se cruzam sem se ver,
No vasto tecido de uma terra sem porto,
Onde o grito de ontem parece tão morto
Quanto a ilusão que teima em não morrer.
E o povo segue, mudo e peregrino,
Carregando o fardo do próprio destino.
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