Entro na névoa de um sinistro abrigo,
No lupanar de carnais esplendores,
Onde o Desejo, esse fantasma antigo,
Acende a febre de cruéis ardores.
Busco o alívio da matéria imunda,
O espasmo vil que esta carne reclama...
Mas eis que surge, na noite profunda,
Uma visão que a minh'alma inflama!
Uma jovem, de formas purpurinas,
Numa nudez de olímpica realeza,
Dada ao delírio de duas divinas,
Sagradas formas de sutil beleza:
Corpos mutantes, de andrógena graça,
Travestis anjos em gozo profundo!
E aquela carne que se entrega e enlaça,
Vence a miséria deste lodo mundo.
Não era o vício em sua fúria insana,
Nem o pecado que o inferno condena:
Era a volúpia transmutada, arcana,
Numa liturgia mística e serena.
Ó possessão de esplendores divinos!
Naquele leito de luxúria e espanto,
Unem-se os sexos, os fluidos, os hinos...
E o Lupanar se santifica em Canto!
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