A pedra no rio do meu peito
é osso feito.
Não rola, não cede, não se abranda
com a água que passa e finge consolo.
Fica ali, quieta,
pesando o que não digo,
entalhada em silêncio de quarenta anos.
Às vezes lateja como dente cariado
quando o dia amanhece sem motivo.
Eu passo a mão por dentro do peito
e toco essa coisa dura,
redonda, antiga,
quase mineral.
É o que restou de tanto querer
e de tanto não querer.
O rio corre por fora,
limpo, brasileiro, distraído.
Dentro, a pedra.
E o osso.
E eu, entre os dois,
aprendendo a ser paisagem.
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