segunda-feira, 18 de maio de 2026

A pedra no rio do meu peito é osso feito



A pedra no rio do meu peito  

é osso feito.  

Não rola, não cede, não se abranda  

com a água que passa e finge consolo.


Fica ali, quieta,  

pesando o que não digo,  

entalhada em silêncio de quarenta anos.  

Às vezes lateja como dente cariado  

quando o dia amanhece sem motivo.


Eu passo a mão por dentro do peito  

e toco essa coisa dura,  

redonda, antiga,  

quase mineral.  

É o que restou de tanto querer  

e de tanto não querer.


O rio corre por fora,  

limpo, brasileiro, distraído.  

Dentro, a pedra.  

E o osso.  

E eu, entre os dois,  

aprendendo a ser paisagem.

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