segunda-feira, 18 de maio de 2026

A Cópula das Sombras


Ah! Um urubu pousou na minha sorte

Augusto dos Anjos


Pousam as aves de sinistro porte,

Após o banquete da carniça imunda,

Onde sorveram o licor da morte

Na carne morta, podre e decolunda.


Saciados do espólio do cadáver frio,

Que apodrecia no lodaçal do mundo,

Os dois urubus, num espasmo sombrio,

Entregam-se ao gozo, místico e profundo.


As asas negras vibram no abandono,

Garras que rasgam a atmosfera escura,

Unindo a vida ao derradeiro sono,


Na mais bizarra e fúnebre ventura...

E ali, na lama, onde a matéria fenece,

A própria Morte em Vida transmutou-se... e amanhece.

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