No Quarto os Gemidos São Altos
No quarto onde a sombra se condensa em carne, gemidos sobem como preces sem destino, ecoam, roucos, no silêncio que se esgarça, vícios humanos, lama escura do destino.
Ó luxúria triste, animal que se arrasta, boca que suga e morde sem jamais saciar, corpos que se entrelaçam em nódoas de suor, almas perdidas no charco do gozar.
O pau que fere, o cu que se abre em ferida, seios mordidos, línguas que lambem o abismo, tudo é fome que nunca se alimenta, tudo é prisão de carne e de delírio.
Tristeza negra do prazer que se consome, gozo que nasce sujo, viscoso, quente, e cai como baba de deus abandonado sobre lençóis que guardam o cheiro da morte.
Mas eis que, no ápice da noite mais trevosa, explode enfim a branca flor do espasmo: gozo branco, luar que jorra e se derrama, leite astral sobre a carne profanada.
Límpido, puro, como neve que desce do céu de um astro frio e indiferente, banha os corpos exaustos, ilumina a lama, e transforma o vício em catedral de luz silente.
Ó gozo branco do luar, ó sêmen santo, na escuridão do quarto és a única graça, estrelas líquidas que caem do homem e, por um instante, salvam a desgraça.
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