Ó errante entre névoas de aurora e crepúsculo, onde o rio se faz pensamento e o pensamento rio sem fim, eu canto o véu que não se rasga, a sombra que se ilumina no centro do abismo que pulsa como um coração de anta.
Misterium! Misterium! Ecoa a onça negra nos tetos de folhas, e a lua, velha feiticeira tupinambá, despeja prata líquida sobre os ossos dos mortos que ainda sonham.
Eu vi o Mistério dançar nu entre cipós e estrelas, corpo de mulher e de serpente, seios de montanha, ventre de vulcão adormecido, e na sua boca o verbo que precede o verbo, a sílaba que queima antes de ser dita.
Ó tu, que não tens nome e tens todos os nomes, que te escondes na pupila do jaguar e na lágrima do menino cego, eu te persigo pelas trilhas do impossível, por entre lianas de luz e cipós de treva entrelaçados.
O vento traz cheiro de incenso selvagem e sangue antigo, as árvores falam em língua que o homem esqueceu, e cada folha é um livro aberto onde se escreve o segredo que dissolve o eu no Tu eterno.
Mysterium tremendum et fascinans! Eu me dissolvo, eu me recomponho, sou o grito do macaco uivando na copa, sou o silêncio da pedra que escuta o tempo.
Vem, Lírica do Mistério, despeja sobre mim teu mel negro e teu veneno doce, faze-me louco de claridade, faze-me sábio de ignorância profunda, até que eu seja apenas o eco de tua voz sem boca no coração da mata que nunca dorme.
Assim canto, errante no século que não me quis, e o Mistério ri, e o rio segue, e o poema não acaba.
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