No útero cinzento do tédio, onde a Vontade se masturba sem prazer, engendra-se a mais pura das artes: a estética do nada que se arrasta. É o grande vómito lento da existência, um pus metafísico que escorre pelas horas sem gotejar.
O tédio não é ausência. É presença plena e viscosa, um molusco colossal que adere à alma e suga-lhe as cores. Seus tentáculos são minutos idênticos, suas ventosas são olhares perdidos no teto rachado do quarto.
Ó estética sublime do vazio! Não há catástrofe, não há sangue, não há drama — apenas o peso de ser, o insuportável leveza de continuar existindo sem motivo aparente.
O tédio é o espelho fiel: nele se vê a caveira sorrindo por trás da carne ainda quente, o esqueleto que já se aborrece de si mesmo antes mesmo de morrer. É a consciência convertida em ferida crônica, uma ferida que não sangra — apenas lateja, monótona, ritmada, eterna.
Nas tardes de tédio perfeito, o ar se torna gelatina opaca. Os sons chegam amortecidos, como se o mundo inteiro estivesse dentro de um útero morto. Até o próprio pensamento se cansa de pensar e começa a roer a si mesmo, num lento e educado delírio.
Schopenhauer sorri no escuro: “Eis a verdade sem maquiagem.” O tédio é a Vontade que se olha no espelho e, por um instante, tem nojo de si.
E o homem, esse animal que inventou o entretenimento para fugir da única coisa real, volta sempre ao tédio como o cão volta ao vômito: com uma espécie de ternura masoquista, quase amorosa.
Salve, ó Tédio, grande esteta! Tu que purificas a alma de toda ilusão barata, tu que desnudas o cosmos até restar apenas a nudez absoluta do nada.
Nele, e só nele, a existência finalmente revela sua obra-prima: um quadro branco sobre fundo branco, pintado com o cuspe de Deus num domingo à tarde sem fim.
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