terça-feira, 30 de dezembro de 2025

O Manuscrito das Borboletas


Em um bairro de Buenos Aires, onde o tempo parecia ter se esquecido de mover-se, vivia um homem chamado Aureliano Funes. Não o Funes o memorioso, mas um Funes de outra linhagem, igualmente tocado por uma obsessão peculiar. A sua, no entanto, não era a memória, mas a efemeridade.

Aureliano era um escritor de parcos recursos e menor renome, cujos dias se diluíam entre a biblioteca empoeirada e o aroma acre de seu tabaco barato. Sua esposa, Clara, uma mulher de pragmatismo pétreo, suportava suas divagações com a paciência que apenas a indiferença pode forjar.

Um dia, a musa, ou talvez um capricho do acaso, pousou sobre Aureliano a ideia de escrever sobre borboletas. "Não sobre a ciência da lepidopterologia", explicava ele a Clara, que o ouvia com um bocejo contido, "mas sobre a essência da borboleta. Sua metamorfose, seu voo errático, seu breve e magnífico fulgor. É um espelho do universo, Clara, uma parábola da existência."

Clara apenas murmurou sobre a falta de leite e a conta do açougue.

Aureliano mergulhou em sua tarefa com a intensidade de um tecelão cego que decifra um padrão ancestral. Seus dias e noites foram consumidos pela busca da frase perfeita, da metáfora exata que pudesse aprisionar a leveza da asa num emaranhado de tinta e papel.

"Sabe, Clara," disse ele uma noite, com os olhos febris e uma xícara de café frio na mão, "a borboleta não é apenas um inseto. Ela é a própria ideia da transitoriedade. Imagine: um mundo de borboletas que esquecem seu passado, que não recordam sua fase de larva, nem antecipam a morte iminente. Um presente perpétuo de voo e pólen."

Clara, que bordava um lenço com um desenho de flores robustas e imutáveis, suspirou. "Imagine um mundo onde os homens não se preocupam em pagar as contas, Aureliano. Isso sim seria um conto de fadas."

O manuscrito crescia, página após página, enchendo a pequena escrivaninha de Aureliano com caligrafia miúda e correções obsessivas. Falava de borboletas que nasciam de livros, de borboletas que carregavam segredos cósmicos em suas asas, de borboletas que eram, na verdade, os sonhos não realizados de homens esquecidos. Havia passagens sobre um labirinto de pólen e néctar, sobre a linguagem secreta das antenas, sobre o silêncio que precede o último bater de asas. Aureliano estava criando uma enciclopédia apócrifa, uma zoologia fantástica.

"Estou quase lá, Clara," sussurrava ele para si mesmo, pois Clara já dormia em outro quarto, "estou quase lá. Capturarei a essência da beleza fugaz, a melancolia do efêmero."

Certa manhã, Clara encontrou Aureliano em sua poltrona, o manuscrito aberto no colo, a pena caída no chão. Uma borboleta de asas azuis e iridescentes parecia ter pousado na última página, mas era apenas um efeito de luz, ou talvez, a sombra de uma ausência. Aureliano estava imóvel, os olhos fixos num ponto invisível no teto, sua própria transitoriedade finalmente manifesta.

O funeral foi um evento modesto, como tudo na vida de Aureliano. Após as formalidades e os poucos condolências, Clara retornou à casa silenciosa. Seus olhos pragmáticos varreram o estudo do marido, um lugar que sempre lhe parecera um santuário de inutilidade. O manuscrito ainda estava lá, um volume volumoso de páginas amareladas.

Curiosa, ou talvez movida por um súbito impulso de compreender o que tanto havia consumido seu marido, Clara pegou o manuscrito. Folheou-o, parando em frases isoladas, em descrições de borboletas que voavam para constelações distantes ou que eram a reencarnação de poetas desconhecidos. Leu sobre um mapa que era, na verdade, o padrão das asas de uma borboleta noturna, sobre um espelho que refletia não a imagem, mas a memória de uma borboleta.

Uma estranha sensação começou a se apoderar dela. As palavras pareciam vibrar, e as descrições evocavam imagens de uma beleza tão frágil quanto assombrosa. Por um instante, Clara sentiu o tremor de asas invisíveis em seus próprios ombros. Viu um universo oculto, um plano secreto tecido por seres alados.

Então, seu pragmatismo, seu alicerce de bom senso, reagiu com veemência. "Bobagens!", exclamou ela em voz alta, o som ecoando no vazio da sala. "Loucuras de um sonhador!"

Não havia lugar para borboletas cósmicas em seu mundo de contas e realidades concretas. O manuscrito, com sua promessa de mundos fantásticos, parecia uma ameaça à ordem que ela havia diligentemente mantido. Representava a efemeridade que Aureliano tanto admirava, e que ela tanto temia.

Com uma determinação fria, Clara levou o volume para o quintal. Acendeu uma pequena fogueira com galhos secos e, sem hesitação, jogou o manuscrito nas chamas.

As páginas crepitaram e se retorceram, as palavras se apagando sob o beijo voraz do fogo. O cheiro de papel queimado encheu o ar. Clara observou as chamas consumirem o trabalho de Aureliano, as ideias de borboletas que habitavam outros planos se transformando em cinzas voláteis.

Enquanto as últimas brasas se extinguiam, um detalhe chamou sua atenção. No rastro da fumaça, que subia em espirais finas para o céu pálido de Buenos Aires, por um breve e iridescente momento, Clara jurou ter visto o contorno de milhares de asas, batendo suavemente, antes de se dissiparem no azul. Era como se as borboletas do manuscrito tivessem encontrado sua última e mais etérea metamorfose.

Clara Funes, a mulher de pedra, deu de ombros. "Loucuras."

Mas, naquela noite, ao deitar-se, teve um sonho singular. Sonhou que voava, leve e sem peso, através de um labirinto de pétalas gigantes, guiada por um rastro de pólen estrelado. E quando acordou, a primeira coisa que viu foi uma pequena mancha azulada na parede, que parecia, por um instante fugaz, uma borboleta de pura iridescência, antes de desaparecer na luz da manhã.

Ela nunca mais mencionou o manuscrito das borboletas. E a memória de Aureliano Funes, o escritor das borboletas, foi lentamente se esvanecendo, como o pó de uma asa esquecida.

Objeto Mágico - Conto Fantástico

 


Na província do Rio Grande do Sul, entre os pampas que estendem seu tapete de pasto até o horizonte que confina com o nada, ou talvez com o Uruguai, surgiu o objeto. Não de nascença gaúcha, mas de trânsito, como tudo o que porta em si a dignidade do mistério. Chegou de São Paulo, não numa caixa de exportação ou num embrulho de contrabando, mas nas mãos de um egípcio — ou de alguém que, pela quietude e pelos olhos que pareciam ter visto a fundação do tempo, assim se fazia chamar. Ahmed al-Sultani, talvez, ou apenas um nome impronunciável que o esquecimento fez mudo. Esse egípcio, peregrino ou mercador de sombras, entregou-o a um colecionador de miudezas metafísicas, um agrônomo aposentado que, em vez de sementes, plantava em sua mente dúvidas sobre a natureza do real.

O Objeto, dizem os poucos que o vislumbraram antes que a bruma o reclamasse, não tinha forma definida, ou melhor, assumia todas as formas sem jamais se fixar em uma. Era um poliedro de cristal que pulsava com a luz de estrelas extintas, uma esfera de jade onde rios de prata corriam em ciclos eternos, um cubo de ébano que continha o murmúrio de galáxias inteiras. A sua essência, porém, não residia na sua geometria mutável, mas na sua propriedade mais prodigiosa: o Objeto era uma fenda, um portal, uma compressão do instante total. Ao fitá-lo, podia-se abarcar, num único e vertiginoso lampejo, a eternidade em sua plenitude: o nascimento do universo e o seu derradeiro colapso, a vida de todas as criaturas que já existiram e as que hão de existir, a trama complexa de causas e efeitos, o riso de um bebê e o silêncio de uma estrela morrendo. Era o Aleph, mas um Aleph que se podia segurar na mão, o ponto onde todos os tempos e todos os espaços coexistiam sem contradição, um instante que era, em si, o universo inteiro.

Ninguém sabe ao certo como ou quando desapareceu. Alguns sussurram que ele simplesmente se desfez em partículas de tempo, outros que voltou para as mãos de seu guardião egípcio, que talvez fosse um deus disfarçado. Mas a verdade é mais cruel e mais poética: o Objeto nunca desapareceu, ele apenas se dissolveu na única dimensão que lhe era realmente própria: a memória. E dessa memória, um último bastião de sua existência se aloja agora num hospital em Salvador, Bahia.

Lá jaz Djalma Guimarães, velho e cego, mas não pela ausência de luz, e sim pelo excesso de visões que o Objeto lhe concedeu na sua juventude. Outrora um escritor, um tecelão de palavras que buscava em cada frase a precisão de um teorema e a melodia de um blues, Djalma agora balbucia, preso aos fios e apitos de uma UTI. Seus olhos, velados por uma catarata que é mais um véu místico do que uma doença, fixam-se num ponto invisível no teto do quarto, e em cada respiração ofegante, ele parece recitar, para si mesmo e para o nada, as últimas cifras de um saber proibido. Ele se lembra. Ele é o último guardião do Objeto, não mais na matéria, mas no mais frágil dos invólucros: a mente humana à beira do colapso.

O tempo, que o Objeto condensava num piscar de olhos, agora se alonga, lento e doloroso, para Djalma. Seus lábios secos murmuram sílabas que poderiam ser as coordenadas de universos esquecidos ou apenas o nome de um amor perdido. E, ao morrer, ele não levará o Objeto consigo para o abismo do não-ser. Antes, ele o liberará. E o universo, contido por um momento na sua memória, se expandirá novamente, talvez para o infinito, talvez para o nada. E ninguém, exceto Djalma, saberá que o maior dos tesouros coube por um instante no punho de um homem e na mente de um cego.

Códice de Luanda

 Eis aqui, portanto, o relato de um achado que não se explica, um comentário sobre o volume sem nome, encadernado em pele de bicho desconhecido, que apareceu numa estante de alfarrabista no Recife, vindo, dizem as más línguas, no fundo do baú de um viajante da Guiné que morreu sem dizer palavra, e o livro, escrito numa língua que parece português mas que tropeça nas vírgulas como quem sobe uma duna, é a reescrita da errância de Caim sob um sol que não é o de Canaã, mas um sol pesado, equatorial, onde o crime de matar o irmão não é uma questão de inveja de sacrifícios, mas uma revolta contra o silêncio de um deus que, de tão ocupado com a sua própria perfeição, esqueceu-se de que o barro tem sede.

Neste conto-comentário, o Caim africano não traz a marca na testa como um estigma de vergonha, mas como uma pintura de guerra, e ao chegar às terras do Brasil, neste manuscrito de autor anónimo, ele descobre que o seu crime foi apenas o primeiro de uma série infinita, porque aqui, diz o texto, as pessoas matam os irmãos todos os dias e depois sentam-se à mesa para comer feijão como se o sangue não tivesse escorrido pela calçada, e o que Borges teria chamado de "o labirinto da linhagem", Saramago chamaria de "a cegueira do criador", pois o Caim deste livro misterioso não foge de deus, ele persegue deus para lhe pedir contas, perguntando-lhe, com a voz rouca dos que atravessaram o oceano em porões, por que razão o céu é tão azul e a terra tão vermelha, se o que importa é a cor da justiça que ninguém vê.

O autor desconhecido, que talvez tenha sido um príncipe em Daomé ou um escravo em Olinda, ou as duas coisas ao mesmo tempo no tempo circular da literatura, termina o seu comentário dizendo que a história de Caim é o único espelho honesto da humanidade, porque os Abéis, pobres coitados, morrem cedo demais para aprenderem a mentir, enquanto os Cains sobrevivem para fundar cidades, escrever livros e perguntar, no fim de cada parágrafo longo como uma vida, se valeu a pena ter sido feito à imagem e semelhança de alguém que, tendo podido evitar a mão que se erguia, preferiu olhar para o lado e esperar pelo barulho do osso a quebrar-se, que é, como todos sabemos e o livro confirma, o som preferido dos deuses que não sabem o que fazer com as suas criaturas.Eis o fragmento recuperado, um trecho que a crítica futura (talvez aquela que habita os sonhos ) atribuirá ao Códice de Luanda, aquele volume que cruzou o Atlântico para se perder nas bibliotecas circulares do Recife:

«A história, que os homens insistem em ler como uma linha reta que vai do pó ao pó, é, na verdade, um jardim de pedras que se bifurcam, e no centro desse jardim, sob o sol implacável que não conhece a misericórdia das nuvens, caminha Caim, que não é um homem, mas todos os homens que já seguraram uma pedra com a dúvida na palma da mão, diz o manuscrito que este Caim africano, de pele cor de noite profunda, não matou Abel por um capricho de fumaça, mas porque leu nos olhos do irmão a aceitação servil de um destino imposto por um Demiurgo distraído, e ao golpeá-lo, Caim não buscava o fim do outro, buscava o início de si mesmo, a rutura com o plágio divino que é a existência humana, por isso a marca na sua fronte não é um sinal de exílio, mas a primeira letra de um alfabeto que Deus ainda não aprendeu a ler, e quando o navio fantasma o trouxe às costas do Brasil, esse Caim descobriu que o labirinto de Creta era uma brincadeira de crianças perto das ruas de Salvador, onde o tempo se dobra sobre si mesmo e cada esquina é um altar onde se sacrifica o amanhã em nome de um ontem que nunca existiu, pois, como bem sabemos, a memória é uma biblioteca cujos livros mudam de texto enquanto dormimos, e Caim, agora brasileiro por fatalidade e africano por memória, sentou-se na calçada para ver passar o mundo, compreendendo enfim que Deus e o Diabo são apenas as duas faces de uma moeda que alguém jogou ao ar e que, por um erro de cálculo da gravidade, ainda não caiu.»

O Cristão-Novo e a Doce Mistura do Sangue

 


Olhar para o pensamento de Gilberto Freyre sobre o povo judeu é, antes de tudo, compreender a sua fascinação pelo que ele chamava de "o rastro do cristão-novo" na carne e na alma da gente brasileira, pois para o mestre de Casa-Grande & Senzala, o judeu não era um elemento estranho ou um corpo estranho incrustado na nação, mas sim uma das forças mais plásticas e adaptáveis que ajudaram a amolecer a rigidez do colonizador português, trazendo consigo uma aptidão para o comércio, para a técnica e, sobretudo, uma bonomia urbana que contrastava com o ruralismo xucro dos primeiros engenhos, de modo que Freyre via no "sangue infecto" — termo que ele usava com ironia histórica para desarmar os preconceitos da Inquisição — um dos temperos fundamentais da nossa capacidade de síntese, acreditando ele que o judeu se tornou, no Brasil, mais um dos componentes daquela "democracia racial" (conceito hoje tão debatido, mas que nele era uma aspiração estética) onde o misticismo semita se dissolveu na sensualidade do trópico.

Diferente de Saramago, que olhava para o judeu sob a ética da política e do conflito, Freyre olhava sob a ótica da cultura e da biologia social, interessando-se imensamente pela figura do "marrano" que, ao esconder a sua fé, acabou por impregnar o catolicismo brasileiro de hábitos e trejeitos sutilmente judaicos, desde o asseio pessoal até certas melancolias do espírito, e por isso ele defendia que o Brasil era, em certa medida, um prolongamento dessa vocação hispânica de convívio entre sangues diferentes, onde o judeu, longe de ser o "outro" absoluto, era o primo distante que trouxera a inteligência das cidades para dentro da mata, ajudando a criar uma civilização que, no entender de Gilberto, era superior por ser impura, por ser mestiça, e por ter tido a audácia de transformar o dogma em estilo de vida, o que o levava a manifestar uma simpatia intelectual profunda pelo Estado de Israel em seus primórdios, vendo ali não apenas um projeto político, mas a ressurreição de uma energia criadora que ele reconhecia nos traços de muitos patriarcas do nosso próprio Nordeste.Para Saramago, o judeu é o protagonista de um drama moral universal. Ele não aceitava que a vítima de ontem se tornasse o opressor de hoje. Sua crítica não era ao "ser judeu", mas ao "agir como oponente da humanidade". É uma visão externa e política, pautada pela indignação do homem que não admite privilégios éticos.

Para Freyre, o judeu (especialmente o sefardita/cristão-novo) é uma "pedra de toque" da brasilidade. Ele estava interessado em como o judaísmo "amoleceu" o caráter lusitano e nos deu a nossa bonomia e inteligência comercial. É uma visão interna e cultural, pautada pela admiração do sociólogo que celebra a mistura e o convívio.

Em suma: Saramago via no judaísmo moderno um problema de consciência; Freyre via na herança judaica um trunfo de civilização.

... pequena lamentação sobre uma desavença entre irmãos de terra e de esquecimento...

     Entrar no labirinto da escrita de Saramago é, antes de tudo, aceitar que a pontuação é um rio que corre sem margens fixas, onde as vírgulas são apenas suspiros e os pontos finais são raras sentenças de morte, e assim, postos nesta toada, importa olhar para a relação do homem de Azinhaga com aquele povo que carrega nos ombros o peso de milênios e de um livro que ele, o autor, tanto desconstruiu, pois que Saramago, sendo ateu de estirpe e humanista de urgência, nunca olhou para o judeu como uma entidade metafísica ou uma abstração teológica, mas sim como o homem de carne e osso, o mesmo que sofre e o mesmo que faz sofrer, e é aqui, nesta encruzilhada de humanidade, que a sua voz se tornou, por vezes, um trovão incômodo, porque para ele, que tanto denunciou as cegueiras dos homens, não havia povo eleito que estivesse acima da crítica, nem memória de holocausto que servisse de salvo-conduto para a injustiça do presente, dizia ele, com aquela crueza que lhe era própria e que tantos mal-entendidos gerou, que os judeus, tendo sido as vítimas maiores de um horror inenarrável, pareciam ter aprendido com os seus carrascos a arte de cercar e de oprimir, uma afirmação que caiu como pedra em poço fundo e que lhe valeu o rótulo de antissemita, embora ele insistisse, com a paciência dos que sabem o que dizem, que criticar o Estado de Israel e a sua política de ocupação não era odiar o povo de Spinoza ou de Kafka, mas sim honrar a memória de uma ética que o próprio judaísmo, nas suas raízes mais profundas, sempre defendeu.

Não se pense, contudo, que era um ódio cego, nada mais longe da verdade desse homem que via a história como um novelo de fios embaraçados, o que havia em Saramago era uma desilusão profunda, quase uma dor de pai ou de irmão, ao ver que aqueles que tinham sido as "pedras de esquina" da resistência e do intelecto europeu estavam agora, na sua visão, a erguer muros e a criar guetos, repetindo a geometria do erro que outrora os vitimara, e quando ele viajou a Ramallah e comparou a situação ao espírito de Auschwitz, não o fez por ignorância histórica, que disso não padecia, mas por uma vontade deliberada de chocar a consciência do mundo, de dizer que o sofrimento passado não confere o direito à crueldade futura, e se o mundo o apedrejou com palavras, ele respondeu com o silêncio de quem sabe que a verdade é uma lente que queima, pois para Saramago o judeu era o seu semelhante, o seu vizinho na grande aldeia da desventura humana, e precisamente por o respeitar como igual, não lhe perdoava a falta de compaixão, porque no fim de todas as contas, e as contas dele eram sempre feitas pelo valor da vida humana, o que importava não era a estrela de David ou a cruz ou a meia-lua, mas o modo como cada um de nós, judeu ou gentio, trata o outro quando a noite cai e não há deuses para nos vigiar, apenas a nossa própria e nua consciência.

La Lengua Española

 

La Lengua Española

Lengua de sol, de espada y de campana,
clara en Castilla, ardiente en el confín,
cruzaste el mar con voz de clarín
y echaste raíz en tierra americana.

En ti la frase es mármol que se afana
por dar al pensamiento justo fin;
cada palabra cumple su destino
con gracia austera y fuerza soberana.

Eres rigor y fuego a la medida,
arte que ordena el ímpetu y lo doma,
rosa tallada en férrea geometría.

Lengua que en dos orillas hizo vida,
una en la historia, otra en la paloma,
hablarte es dar forma exacta al día.

La Lengua Portuguesa

 

La Lengua Portuguesa

Lengua de mar, de bronce y melodía,
pulida en sal, en verso y tempestad,
forjada entre la espada y la saudade,
clara como el sol de mediodía.

En ti la sílaba es arquitectura,
cada vocal, un golpe de cincel;
no hay palabra que no guarde en su piel
ritmo, orden, fervor y compostura.

Eres canto exacto, no desborde:
oro tallado al peso del sentido,
rosa severa en mármol obediente.

Lengua que al mundo dio nombre y horizonte,
cuando te digo, el tiempo queda unido
al arte puro de decirte: presente.