quarta-feira, 2 de maio de 2018

Monoteísmo




...se quiseres poder suportar a vida, fica pronto para aceitar a morte...
Sigmund Freud


     Moisés com barba de cigarras
tece tábuas com dez mandamentos.


terça-feira, 1 de maio de 2018

Baladinha ingênua

Baladinha ingênua 


Personagens
Eu
Ela
Os lírios
Serafim
Querubim
Arcanjo



Eu
Começarei recitando os meus rios até os teus olhos. Posso? Posso prosseguir?
Não. Não posso prosseguir sem ela chegar até aqui e me dar um... Como eles
diriam naquele tempo? Um beijo? Um galho? Um verso? O que estou dizendo?
Meu Deus! O que será que eu estou dizendo?

Ela
Aquele rio tem dois seres angelicais nele.

Eu
Como é? Você foi até lá?

Ela
Sentei-me e chorei de saudade dos meus sonhos.

Eu
E o amor que eu te dei?

Ela
Seu amor é uma flecha.
Uma ferida. Uma pequena
melodia esquecida em cima do muro.

Eu
Não posso entender o que me diz...

Ela
Escuta o vento, e você vai entender minhas palavras.

Eu
Não posso. Não sei ler a natureza.

Ela
Escute o silêncio.

Eu
Não posso. Quero crescer como uma árvore.
Quero me mover pela cidade e pelo campo.

Ela
O que você quer de mim?

Eu
Esse anel de ouro que trago no coração
é fruto do sonho e do petróleo.

Ela
Meu Deus! O que ele está dizendo?

Os lírios
Posso te dizer uma coisa apenas, donzelinha linda, donzelinha perfeita.

Ela
Diga-me.

Eu
E queres ouvir os lírios? E não queres me ouvir?

Ela
Ele é muito ciumento.

Os lírios
Ciumento como a prata ou o cimento?

Eu
As duas coisas.

Os lírios
Meu perfume vai te acalmar, coronel ciumento.

Eu
E ainda zombas de mim...

Os lírios
Não vês que me visto 
para Deus melhor do que Salomão?

Eu
Preciso te pedir em casamento. 

Ela
Silêncio.

Os lírios
Escuta o vento.

Eu
Eu não o estou vendo.

entra um serafim, um querubim e um arcanjo.

Serafim
A noite está caindo.

Querubim
Está caindo!

Arcanjo
Está caindo.

Ela
A noite está caindo.

Eu
Está caindo.

Os lírios
Está caindo.

Eu
Meu amor está ferido.

Ela
Está ferido.

Os lírios
Está ferido.

Arcanjo
Está ferido.

Querubim
Está ferido.

Serafim
Está ferido.

fim

Como te quero



Enegrece a noite os meus olhos de porcelana
parado por estrelas sonambulas e luzes e vozes
mares brindam os meus sonhos com nozes
e eu te vejo do outro lado do muro rústica.

Seu corpo brilha como uma navalha
escurecida pelos espelhos secretos da vida.
Disseram-me que eras escura porque não
deixaram o fogo te consumir por dentro.

Como te quero, ousei dizer sem mistérios,
enquanto o tempo soluçava neve e fogo.
E ao mesmo tempo sua voz era o mapa
e o oceano era a roupa do teu seio esquerdo.

Solidão na tarde



Cai o fogo do céu sobre a tarde
em lentas espadas feitas de folhas.
Nas ruas os asfaltos são corações
esquecidos no meio das cidades afoitas.

A brisa quente do destino se assemelha
a olhos de crepúsculos em forma de estrelas explodidas.
Negras anjas voam pelas imensas silhuetas
enquanto a tarde geme sua canção de sinos.

Ó voz turbulenta de vinagre, vitamina,
solidão da minha própria carne em runas medidas.
Por que viraste o rosto para mim, envelhecido profeta?
Agora eu sou aquele rio que passa pela terra.

Meu sono se assemelha ao petróleo oriental,
e minhas barbas arábicas tecem gotas de brisa.
Leio, leio, compulsivo, cheio de obsessões e enigmas.
Ferido pela lua e pelo sol, o calor estremece por dentro.

O coração, frio petróleo asmático, montanha
que se eleva gelada pelos lírios, não distingue
o sol que cai para escurecer o céu com carvão.
Levantamos sozinhos o papel, o amor, e a imensidão.

Mistério



Não posso, e como posso, se é que posso,
esquecer teus olhos da cor do mel,
abelhinha, abelhinha, fonte das folhas,
fonte das rimas esquecidas, perdidas.

Não posso, e como posso, se é que posso, 
esquecer seu corpo de violão oriental,
esquecer as mechas negras dos seus
cabelos de gata diante do por-do-sol.

Não posso, e como posso, se é que posso, 
esquecer suas mãos suaves meditando
o papel onde minha letra caligrafa
o poente com olhos melancólicos.

Não posso, e como posso, se é que posso, 
esquecer o seu perfume de morango,
sua voz de rabanete, seus dentes morenos,
seu nariz adunco de linda sereia ardente.

Não posso, e como posso, se é que posso, 
esquecer suas roupas coloridas,
o giz negro dos lábios perfeitos,
o amor que me deste, dizendo: poeta meigo.

Não posso, e como posso, se é que posso, 
esquecer a sua formosura antes do tempo,
sua linda melodia nos olhos judia imparcial
onde se esconde sua face na burca celestial.

Por-do-sol no mar



Navios acenam para o mar sem vida
seus cristais intranquilos de lágrimas incontidas.
A tempestade densa chora suas nuvens
e o algodão de poucas gotas tinge a terra.

Velhos marinheiros sussurram saudades
de sereias perfumadas de algas e luas.
Seios brilhantes como a noite com espadas
coroam a videira do oceano com pomares.

Do que falam tanto os turistas desesperados
se a solidão do mar é feita de sal e rochas?
As aves não estão cantando porque estão mortas,
e o frio que suspira é a sinfonia do oceano.

Lentamente o cristal do céu tece no sol
a legenda de algum galo feito de corais e ondas.
Os olhos cansados do poeta insone
naufraga pela varanda cheio de serras e sonhos.

Dialogando com a arte