sexta-feira, 6 de novembro de 2015

xadrez cotidiano


É outro tempo agora. Outros sonhos, outras eras.
O mundo, já dizia o poeta, não é mais mágico.
É outro jardim, mesmo que seja o mesmo jardim.

Contém as mesmas horas, mais já são outras horas.
As aves não são as mesmas, os luares também não são.
É outra eternidade, outro olhar, outro suspiro.
Pode ser que seja a mesma coisa, repetindo-se
Como uma partida de xadrez. Pode ser que a morte
Seja apenas isso e que a vida seja apenas isso também.
Não me importa o significado das coisas, ou dos dias, ou
Do olhar sonolento do leão e do tigre. Que o amor seja
O que nos revelará o que nada mais pode nos revelar.
Que o amor nos revele sempre o tudo e o nada da
[existência...
(foto: ilustrativa)

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

ensaio de balada nórdica

Misturo os meus sonhos nesses
labirintos de versos. Nenhuma 
escuridão pode afastar os meus lábios
da ardente pureza dos seus. Penso
em ti, e me surge uma frase que 
embala baladas nórdicas: 
*jag alskar denna flicka ren.
Em ti repouso o meu amor como
um pássaro tropical, e ouves minha
voz em teus castelos distantes.
Amor, essa é a lida dos nosso destinos,
nos amarmos na beleza desse céu claríssimo.
Assim como o céu dos seus olhos são claro,
assim é o nosso amor, *tjej som jag alskar.

 
(foto: ilustrativa)


*significado das frases em sueco: "jag alskar denna flicka ren", em tradução literal seria, "eu amo essa garota pura". Já, "tjej som jag alskar", ficaria sendo algo como, "menina que eu amo".

O segredo do tigre

Em tuas mechas morenas, Deus
escondeu um universo inteiro.
Esse era o intento forasteiro 
que só habitavam os segredos teus.
Impossível segredar tais palavras
que geraram a visão da tua beleza.
Essa é a formosura da natureza,
esconder-te de mim para lavrá-la.
Não vou esquecer tal sonho, nem
vou decifrar teu mistério. Mesmo
que isso não seja sério em cinismo.
Sei que teus beijos me fariam bem.
Isso é o que sugiro: amá-la também.
Não deixo de fitar meu abstracionismo,
pois amar-te, é sarar-te de outro alguém!
(imagem: ilustrativa)

O BURACO SEM FIM (conto)

Era um buraco sem fim. Não tinha fim
aquele buraco. Era imenso, profundo e escuro.
Algumas crianças brincavam em volta do bura-
co, ouvindo as vozes de seus pais gritan-
do para elas: "cuidado, quem brinca com bura-
cos fazem xixi na cama". Nascia mais um provér-
bio popular. Culpa do buraco, é claro!
Alguns vândalos jogavam coisas dentro do tal
buraco. Procuravam ouvir o barulho das garrafas
se quebrando ao fundo. Não escutavam nada.
Mandaram uma câmera para achar o fundo;
sondas atrás de sondas desapareciam na escuridão.
O buraco virou um assunto nacional. Depois, se
tornou assunto internacional. Até uma seita religiosa
foi criada em sua volta para endeusa-lo. As outras
religiões excomungaram o buraco. O buraco passou
a ser um problema, um herege. Cuspiam no buraco,
maltratavam-no, insultavam-no. Mudaram o nome da
cidade em homenagem ao buraco. Buracópolis. Os comediantes
passaram a escrever piadas sobre o buraco. O buraco passou a sair
nas capas das revistas de notícia, de fofoca, nos jornais...
Até que um dia, jogaram areia no buraco sem fim. 
E até os dias de hoje ele está completamente tampado.
(foto: ilustrativa)
  

terça-feira, 3 de novembro de 2015

inominável

As esquecidas palavras do amor e das auroras
e dos sonhos,  distanciaram
algumas estrelas azuladas.
No único reflexo permitido
ao tempo refletir, nenhuma filosofia
importava e nenhuma miragem
ardia na fonte viva dos beijos e do amor.
Ó inominável companheira,
que falta me faz os teus abraços!
(foto: ilustrativa)

RETÓRICA



Ali estava o tempo e o presente
vago como a luz. Naqueles dias
o mar era apenas uma metáfora
da memória do amor e dos sonhos.

Só os olhos que viam a beleza
transparente do vento e da chuva
contemplaram a rosa com lágrimas
sinceras (sem sombra ou saudade).

Já não era meu o desejo de batalhar
com as espadas. Tudo refletia apenas
o simples movimento da guitarra chorosa.

Quem estava lá, ousou refletir-me em versos.
Nunca apagaram-me da lembrança ou do destino.
O outro me refletia, mais eu sentia a eternidade.
(imagem: ilustrativa)

Não me lembro

Não me lembro do sonho, nem das auroras.
  A sombra luminosa da cidade
  partiu-se em duas faces desconhecidas.
O nome da lembrança tornou-se um sublime 
esquecimento. Para mim, tudo fazia sentido.
 Aquele silêncio, o luar, a rosa abandonada
 no jardim, as ruas silenciosas, as metáforas
 dos sonhos, o amor esquecido.
  Quem sabe tudo não passou apenas de
 um enigma indecifrável do rosto inlembrável
                                                                do universo?
É a mesma moeda essa face, esse rio, 
                     essa lua ardente dos seus olhos
(que já não me lembro e tanto amo).
(imagem: ilustrativa)