sábado, 28 de janeiro de 2017

são tão belas

(ciganas com colares de luar esverdeado)

são tão belas são tão belas
 as ciganas de castela

são tão belas são tão belas
as ciganas de minha terra

são tão belas são tão belas
as ciganas de arco e vela

são tão belas são tão belas
as ciganas do mar aberto

são tão belas são tão belas
as ciganas de olhos negros

são tão belas são tão belas
as ciganas com seus cabelos

são tão belas são tão belas
as ciganas de castela

são tão belas são tão belas
as ciganas de minha terra!

Aqui estou eu


Aqui estou eu
o pintor sem materiais
e sem nuvens e dinheiros
vejo as mariposas contra
o vento dançando nas oliveiras.

Queria tingir e pintar
de azul essa folha branca
mais as tintas que me faltam
doem a minha alma amorosa.

Aqui estou eu
o pintor sem materiais
e sem nuvens e dinheiros
vejo as mariposas contra
o vento dançando nas oliveiras.

Nas mãos a angustia
de não ter um pincel ou
a tinta guache a disposição.
A noite é a mecenas que me abandonou. E

Aqui estou eu
o pintor sem materiais
e sem nuvens e dinheiros
vejo as mariposas contra
o vento dançando nas oliveiras.

A tinta me consome a alma
como se fosse uma fumaça
subindo pela cadeira e pelo céu.
As águas transbordam em meu ser.

Aqui estou eu
o pintor sem materiais
e sem nuvens e dinheiros
vejo as mariposas contra
o vento dançando nas oliveiras.

Alguns me julgam rudes
eu me creio um andaluz desterrado.
Fiquei com um coração cosmopolita
mais a minha terra quis me destratar.

Aqui estou eu
o pintor sem materiais
e sem nuvens e dinheiros
vejo as mariposas contra
o vento dançando nas oliveiras.

Chamaram-me de ladrão
e os ladrões roubam dinheiro 
em todas as partes, enquanto eu
julgo estar vivendo da minha arte.

Aqui estou eu
o pintor sem materiais
e sem nuvens e dinheiros
vejo as mariposas contra
o vento dançando nas oliveiras.


Dói o meu ser porque
não te vejo mais. E

Aqui estou eu
o pintor sem materiais
e sem nuvens e dinheiros
vejo as mariposas contra
o vento dançando nas oliveiras.


Canção do camponês sobre a morte

...ouvindo dois camponeses cantando sobre a morte...


Mira a tua morte
sombra de alguma
coisa inominável
talvez ou seja
a mesma coisa
de antes: neve
branca e mar cinzento
céu azulado e céu nublado.
Assim verás o meu rosto
cheio de angustia e suor.
Minhas mãos estarão numa nuvem.
Eu serei o outono.
Tu não serás mais nada
a não ser uma folha solitário
bem no final do campo.

A amada escolhida

...lembrando de um amor que num dia não soube cuidar....

Sim amor, nasce o sol em teus olhos
porque sombras de mel encobriram os teus lábis serenos.
Ai amor, a solidão é angustiante, mais te-la
em meus braços é subir até o trono do E'terno.

Coroa a minha boca com a tua boca de morango,
deixa-me sentir os teus cabelos de água me molhando.
És a fonte primeva da minha poesia mais pura.
Te entrego os meus belos versos porque te amo muito.

Sua lembrança é a espada que me fere
quando o meu suor transparece entre o riso e a dor,
pois miro a tua face no espelho e te encontro

celeste como a estrela mais bela e fria que existe.
Por isso o amor nos quis unir, por isso te amei.
Te amei com sombras, porque és a amada escolhida!

Para uma mariposa asiática

Sim e não, são os seus beijos de fornalha
que me fazem se apaixonar pelo céu de teus lábios.
Incendiado por estrelas, panetones, suspiros e versos
os teus olhos me movem por esse mar de alegria.

Miro em tua face a constelação mais distante
e vou suspirando o teu nome pelas ruas sombrias.
Eu te quero e tu me queres como a manhã nubladíssima. 
Por isso nossas lágrimas e risos se amam tanto.

Dizes o meu nome companheira
em teus lábios celestes que me movem no amor.
És a minha casa, e eu sou a tua plameira.

Não vês que te amo com as coisas mais belas
e as coisas mais sombrias e enigmáticas? 
És a minha flor predileta, e teu perfume é o meu descanso. 

interrogação qualquer


...com os jornais políticos diante dos meus olhos, com a sensação que o meu coração vai explodir de dor, alegria e ódio, com os livros de história representando o passado do mundo, com o desejo de ser burgues sem se tornar um burgues....

Esses abismos essas guerras
esses delírios essas canções

eu estou ouvindo música
enquanto o mundo se explode.

Ai de mim que odeio tudo
o que pode me irritar.

Não gosto dos homens maus,
são insuportáveis, como os piolhos.

Não gosto do sofrimento,
por isso é que sofro.

Deixemos essas coisas para
o amanhã ou para o hoje?

Enquanto me interrogo
com a cabeça cheia de dor

alguns burgueses riem,
outros comem, outros se lambuzam.

Minha perna conclama uma nova
revolução de outubro (mais que seja dessa vez uma revolução mundial).

Acabemos com a traça e com a misera.
Não seremos um dia o pó da terra, não?

Da janela da minha casa

...com os olhos cheios de espuma marinha e as mãos,  segurando pequenas  estrelas vermelhas quentes....

Da janela da minha casa
componho os meus sonhos coloridos
chorando lágrimas em formas de gafanhotos.
Me repito sempre, porque o mar está longe
e o meu coração de tartaruga marinha
está chorando, está sofrendo.
Não vejo a hora de partir nesse
mundo como um pequeno ouriço
e dormir nas asas de uma coruja
e chorar com os lagartos recém despertados do
dilúvio do amor.
Por mim tudo pode ficar explicado
nesse começo de apocalipse imóvel e sério.
Da janela da minha casa
componho os meus cânticos de frio e de neve.
Alguns ouvem e se irritam, outros riem e me aguentam.
Não posso ser vento, nem mel, nem farinha, nem coisa
alguma que sustente uma eterna alegria.
Por isso a janela cinzenta do meu quarto
simboliza a paz do mundo, simboliza o pó da terra.
O mar está distante e minha alma está encolhida.
Me perdi na terra como um caracol.
Sou miúdo e não tenho saída.