sexta-feira, 20 de abril de 2018

Sua voz


Não se esqueça
de mim, não, não se esqueça,
enquanto os sonhos repartem
o azul cristalino do céu
quero que você decore
o meu nome sem tranças.
 Não se esqueça de dizer
que todas as coisas estão
trancadas com a tua voz de girassol:
a porta, a janela. Não se esqueça.
Enquanto a madrugada fere-nos 
com arpões e mistérios de outrora,
não se esqueça de me abraçar
com sua voz,
sua voz de poucas horas.

A voz do morto



Acordo morto todo dia,
adormecido pelo som lilás
da tua voz de melancia.
 Visão de runas
e melancólicas argilas,
remédios vencidos sem
datas, livros tombadas
como guerreiros de Granada.
Vencido e vencedor
unidos pelo mesmo sangue
e derretidos pelo mesmo sol.
 Com o cantar gigante
componho poemas com
coisas que  me rodeiam 
e rimam minha ansia
de escapar da morte:
 morte pura
 morte sem sorte
 morte melancolia.
Acordo e vejo seus lírios.
E de novo adormeço,
com sede,
com fome.

Vendo o jardim do meu avô



Na imensa luz das cores
mariposas valsam pequenas
como orquídeas recém despertadas
para a vida destruída das flores.

O jardim tombado e morto
vela pequenos anjos negros
enquanto muralhas de perfumes
se espalham pelo sangue do dinheiro.

O sol alaranjado rege
o azul com foices e martelos.
O rio segue seu ritmo de mar
para afogar sereias com licores.

Do outro lado do muro
sete navalhas empenhadas a cortar.
Rouxinóis cantam
enquanto mariposas voam.

Ternura para o amanhã

 

 Onde minhas mãos se escondem
longe dos teus olhos de luares frios
ali me deito ali sonho ali me torno
algo escuro algo enegrecido algo puro.

Sua boca torna a me alimentar com
imaginações e ferros pesados enquanto
meu pulso e meu suave pensamento
conclui com palavras secas a vida 

e o deserto das casas desmoronam
tumbas no fundo da minha alma sangrada
e estrelas pequenas e baças fundam
nomes que não posso dizer por futuros.

Sei que o meu amor foi congelado
sei que as minhas palavras já não valem nada
por dentro do carro fui vendo as estradas
e o verde vivo do cosmo inchou minha alma.

Minha pobre alma velada pelo amanhã
minha pobre voz roubada pelo rei dos grilos
meus pensamentos ocultos feitos de estilhaços
vidros vidros do oceano e do sal onde pousei

onde eu quis ser mais do que eu poderia ser
mas
a vida não quis que eu fosse nada que eu pudesse
e minha voz cantou desesperada de silêncio como o galo

solitário no jardim da minha casa
e me lembrei de rostos rostos lindos rostos bons
e me lembrei que a morte era apenas uma metamorfose
da própria vida e que a vida por si mesma não pode ser sem a morte.

Mas eu já não estava iluminado,
me deixaram separado de tudo o que eu amava:
das bibliotecas cheias de teias de aranha e pessoas
enclausuradas em celulares, 

do oceano, da praia imóvel, da areia pura e seca do mar
onde meus braços podiam repousar e a minha esperança
assassinada por brutos e invejosos rodeando minha alma
e eu me lembrei que eu era um serafim abandonado.

E quanto mais eu gritava conseguia ver o silêncio
dos mortos que me rodeiam nessa cidade abandonada
e quando eu quis ver as estrelas
pude sentir o vento e o frio do cosmo me tocando.

Com a voz fanha e embargada de suor
eu quis dizer tudo, e como sempre eu não dizia nada
nada que as espadas da escuridão e as cavernas da vida
não iam dizendo na minha cuca fundida de pó e lama,

zombavam de mim quando eu era criança
e de repente me tornei admirado calado quieto assustado
 e nenhuma palavra conseguia me atingir
porque era tarde, a escuridão do sol corroeu a minha alma

e o lustre das baleias, o amanhecer dos besouros,
a mordida dos vaga-lumes, as picadas dos pernilongos,
a morte do touro com navalhas de comércio e o fogo
do relinchar dos equinos transportados sem asas 

tudo isso apagava os meus pensamentos
e eu cruzava os dedos incapaz de trabalhar
e em cada noite me deixavam morto
enquanto os meus olhos falavam de

mariposas, runas, antigos destinos,
descendências feitas de papel em lata,
medalhões esmagados e ouro roubado
que não se pode comer nem partilhar. 

Quando me coloquei de pé
disseram que tudo o que sei fazer são
desabafos, comercializando traumas,
propondo enigmas antigos 

e parábolas que nenhum ser
doente ou cheio de feridas poderia
entender com os olhos manchados
de lágrimas roxas. 

Foi então que coloquei em todos os meus versos
as janelas, as cortinas, os sofás, as casas,
e foi ai que entenderam que enquanto a
noite bruta me velava meus sonhos iam

se tornando reais: marchavam, como as horas,
seguiam o ritmo dos ponteiros e o frio do vento
anunciava a chegada da manhã. 

 Eu, com a mais doce ternura, 
coloquei no fundo do peito uma agulha.
E a manhã foi se tornando alva, como um sonho,
e me lembrei que a cor amarela também era esperança.